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O Império Contra-ataca. Primeiro o fim do mundo figurativo. Agora o fim do mundo literal. Não bem. Mas quase. Só um bocadinho mais a Norte.

Sunday, May 11, 2008

FIM!


Eu não disse que o nome do blog fazia todo o sentido?

Então até uma próxima. (duvido...)

Obrigadinhos!

Mi Buenos Aires Querido, cuando yo te vuelva a ver…



Buenos Aires apanhou-me de surpresa. Do turbilhão que tinham sido os meus últimos meses, da ansiedade do Contacto, da espera sem destino, dos meses passados na Argélia… a minha cabeça ainda se estava a tentar organizar no meio de tanta novidade e informação. Buenos Aires foi um novo desafio que abracei com entusiasmo, decidido a guardar o melhor da aventura anterior e decidido não a esquecer o pior, mas a guardá-lo como lição de vida. Mas a verdade é que de um país extremista Árabe onde impera a lei da selva, passava para um país que desconhecia e do qual pouco ou nada sabia. Maradona, Che Guevara, Evita Perón, Carlos Gardel…. nada. Sabia que era um país da América latina com tudo o que isso tem também de aventura.

Sou um bocado de extremos. E as primeiras impressões ficam vincadas em mim. Buenos Aires conquistou-me em 40 minutos. Foi o tempo que demorou a viagem do Aeroporto a casa do André. Pelo meio da confusão, ruas com gente por todo o lado. Trânsito que nunca mais acaba… o caos completo. Nem sequer passei num monumento nem nada de particularmente interessante. E no entanto, saí do táxi e pensei para mim mesmo “Vou gostar disto.”. Talvez tenha sido intuição. Talvez tenha sido do taxista, o primeiro de muitos com quem fui travando interessantes conversas. Talvez tenha sido do ar que respirei. Ou talvez fosse o efeito das mais de 24 horas de viagem. Não sei do que foi. Mas sei que foi assim.

Já aqui o disse. Buenos Aires não é uma cidade que se fotografe. Não é uma cidade que se conhece de roteiros em roteiro, dentro de museus, nas obras de arte. Não tem sequer grandes monumentos. Buenos Aires é uma cidade que se sente. É preciso sentir-lhe o pulso. Perceber a sua gente. Escutar a sua confusão. Compreender-lhe a vida. Respirar-lhe os cheiros. E então, descobrir o seu charme. Aquelas ruas, aquele “lio”, aquele frenesim em poucos dias tomou conta de mim. Foi como estar em casa. Aqueles argentinos, cheios de piada, sempre simpáticos e de sorriso rasgado. Gente de energia muito positiva. Aquela pronúncia que faz do “ll” um “x” ou do “y” um “j”. Que assim que sabem que somos portugueses falam disto e mais daquilo. Sabem tudo. Aquela americanização, com lojas abertas 24h por dia, movimento a qualquer hora em qualquer lugar em qualquer dia da semana. Os parques aqui e além. As árvores em todas as ruas. O design em todo o lado. Nos restaurantes, nas lojas, tudo. A carne. O tango… a VIDA.

Buenos Aires é uma senhora de 50 anos que em crise de meia-idade se pinta de lábios vermelhos bem carregados. Palavra de Mariazinha de Cinfães e bem acertada.

Buenos Aires apanhou-me de surpresa. E ainda bem.

E depois, ou antes. Ou ao mesmo tempo. Há os amigos. Aqueles que me fizeram viver a cidade no seu melhor. Sem ordens, André, Sónia, Tânia, Maria, Mário, Mariana, Tomaz, Ana, Pedro, Frederico, Mónica… e todos os outros que foram passando por lá… todos os que me foram preenchendo a vida argentina. Um grupo instantâneo onde encaixei e encontrei o meu lugar de modo quase automático. Guardo-os a todos no coração com saudade e carinho.

Os pequenos almoços no Puerto del Cármen, as empanadas do Romário, o Bife Chorizo do desnível, as noites no Ópera Bay, os fins de semana repartidos entre S Telmo, Recoleta e Palermo, os fins de tarde na Freddo, o Tango em cada esquina… as reuniões em casa da Tânia, da Sónia, em minha casa… os fins de tarde de piscina em casa do André… as coisas tão simples… tão banais… tão marcantes…
Já passou um ano desde que aterrei em Portugal. Um ano. Inteirinho. Digo que o tempo lá passou rápido. Pois cá não passou mais devagar. Passou foi com Buenos Aires na cabeça todos, mas rigorosamente todos os dias.

Depois termina-se a odisseia com a viagem que vos fui descrevendo ao longo deste ano. E enche-se o peito. Volta-se a Buenos Aires e cai-se na real. E percebe-se que vai a acabar. Que está a acabar. Preciso de mais um dia. Só mais um dia! Txiiii nunca cheguei a ir ver a Livraria Ateneo… e o Tigre? E nunca fui à pampa! E o jogo do Boca? Ou do River? Mas também… se visse tudo que justificação teria para voltar?

Vira-se as costas a Buenos Aires. Volta-se a Portugal. Volto sem perceber se estava a perder alguma coisa ou se estava a trazer algo mais comigo. Acho que é a segunda hipótese que impera. Tem de ser.

Diz o poeta que nunca se deve voltar onde um dia já se foi feliz. Discordo. Totalmente. De tal maneira que conto os dias para lá voltar. Não sei quando será. Mas vai ser.

Buenos Aires apanhou-me de surpresa. Quem sabe um dia não lhe faço o mesmo?

Fica por aqui este blog. Finalmente, diria eu. Acaba-se o peso na consciência de o ter deixado ao abandono. Um ano e um mês depois da chegada a Portugal, fecha-se aqui a última página de um livro. Daqueles livros que nos marcam e nunca ganham pó. Porque de vez em quando voltamos a ir à prateleira para lhe pegar e o ler de ponta a ponta. Ou só para relembrar aquela passagem que já sabemos de cor.

Ché!



























































































P.S. (o último) – Começou há pouco um novo projecto. Um projecto de vida. A dois e há muito desejado! Welcome to: The Warehouse.

Wednesday, November 07, 2007

Dia 29 a 32 ::: 04-04-2007 a 07-04-2007 ::: Mendoza - Acabar como comecei.

Mendoza por momentos

Nota prévia: Por motivos vários, nomeadamente a falta de assunto, os dias de Mendoza foram condensados num post. A verdade é que foram dias de descanso, mais do que qualquer outra coisa. Há pouca coisa para dizer e parti-la em posts era um bocadinho ridículo.

Mendoza foi a cidade escolhida para terminar a viagem. Não ia lá com grandes propósitos turísticos. Foi o local escolhido para descansar, para voltar a Buenos Aires em grande forma. Visto agora, à distância, foi uma má escolha. Fiquei dias a mais ali, dias que podia ter aproveitado muito melhor talvez não noutros pontos da viagem (porque o dinheiro já não existia) mas seguramente em Buenos Aires, onde me sobrou pouco tempo para as despedidas.

No entanto, foram dias bem passados. Começou com um retorno às actividades radicais com um rafting, passou por mais jantaradas multinacionais e continuou com o reencontro com Corinna e, inesperadamente para os dois, com Flo, o outro alemão que andou connosco em Ushuaia. Com eles passei os restantes dias, simplesmente estando por ali. Pontos altos? Dois: parapente e futebol. Mas primeiro a cidade. Mendoza é uma cidade inteiramente humana. Significa isto, que no lugar onde hoje existe uma cidade enorme e verde, havia antes deserto. A construção de um complexo e bem pensao sistema de aproveitamente do degelo da neve dos antes, permitiu a criação de uma enorme represa. É essa represa que é distribuída por canais que circulam em toda a cidade e que alimentam de água o solo das intermináveis extensões de vinha. Foi também esse sistema que permitiu a construção de uma pequena barragem de caudal, a tal que provoca os rápidos nos canais onde eu me andei a divertir. A água, essa, como qualquer água proveniente do degelo é... ai como é que era mesmo? Isso. Gelada. A cidade vive do vinho. Da produção e do turismo. Se os vinhos argentinos são internacionalmente reconhecidos, muito se deve a Mendoza, cidade onde é produzido cerca de 75% do vinho do país. Também o turismo se desenvolveu à volta do tema e hoje é destino de eleição de especialistas da matéria e de outras pessoas que não sendo tão experts não deixam de ser apreciadoras.

A tal barragem que controla o caudal e os rápidos.

O canal principal.

A praça central e o típico hábito argentino de estar deitado na relva a relaxar.


Numa noite com a Corinna, Flo y sus amigos.


E agora o Parapente. Não foi sky dive como me tinham dito, mas foi igualmente divertido. Uma sensação fantástica. Muito mais pacífico do que eu imaginava, flutuava no céu, balançava ao sabor do vento, subia e descia conforme o guia queria. Aqui e ali um momento de maior emoção com descidas em parafuso ou um balançar para os lados mais acentuado. Nessas alturas, a cabeça anda à roda, o estômago torce-se, as emoções misturam-se e a adrenalina dispara. A repetir de certeza.

A vista impunha respeito.

Mas a moral era alta.


Ah... sorriso aberto. So far so good.

Mãe! Mãe! Sem pés!!

Não sabia que um Parapente conseguia subir. Ali em baixo é a base de saída.

Godoy Cruz X Rosário Central: Num ano marcado por altas cenas de violência nos estádios de futebol argentino, em todos os jogos todos os fins-de-semana levando até à interrupção do campeonato por várias semanas, consegui o impossível. Vivi quatro meses em Buenos Aires e não vi nem um jogo do Boca nem do River. O facto de ter apanhado as férias de verão também não ajudou. Assim que quando recebi o convite o Flo e do seu amigo alemão estudante em Mendoza para ir ver um jogo não pude recusar. Costumo dizer que um povo se mostra num estádio de futebol. E, há que dizer, nem na Argélia deixei de ir ao estádio. Não tinha visto nenhum dos míticos mas não iria embora sem ver um jogo de futebol na Argentina. Meu dito meu feito.


stava assim o resultado quando tive de sair a 5 minutos do fim por causa do autocarro. Um jogo aborrecido, sonolento e decidido de penalti. Acabou 3-1. Hã? Que sorte...


E foi o jogo a última actividade em Mendoza. Dali, segui directo para o hotstel, onde apanhei a mochila e fui directo para a camioneta. Buenos Aires era o destino. A viagem chegava assim ao fim. Na verdade, na minha cabeça, a viagem chegou ao fim em Uyuni. E já tinha tido consciência disso na viagem de regresso à Argentina. A verdade é que depois de Uyuni sabia que nada do que veria depois chegaria sequer aos calcanhares do Salar. Por isso optei por olhar para estes últimos dias como dias de recuperação e de digestão da viagem. Penso que de certa forma foi melhor assim. Aterrar no meio da caótica Buenos Aires vindo directamente das maravilhas que andei a ver podia ser prejudicial. Para tudo é necessária uma adaptação e depois de 31 dias a viajar também eu precisava de uma, como precisei quando comecei a viagem por Ushuaia.

Foi uma experiência com princípio, meio e um fim parcial. Digo parcial porque o bichinho de mochileiro picou-me. Adorei a experiência e ainda vinha no autocarro de regresso a Buenos Aires e já planeava a próxima. Peru e Bolívia serão os próximos alvos. Não sei quando será mas será de certeza. Talvez nessa altura abra um blog para vos contar.

E um relato destes não podia terminar sem uma última aventura. Assim que arrancámos de Mendoza, o simpático assistente de bordo diz ao microfone uma coisa que me encheu de confiança. “Senhores passageiros dentro de momentos vamos pedir-lhes que fechem as cortinas e apagaremos as luzes por alguns instantes. Nesta zona é habitual atirarem pedras aos autocarros para os saquearem depois. Tentaremos que tudo corra dentro da normalidade.”. E eu tudo bem. Depois de tanta coisa, acho que já nada me espanta. Fechei a cortina e os olhos. Acordei em Buenos Aires.

Estou de volta, com o peito inchado por uma sensação de orgulho e de missão cumprida. Agora é hora de um merecido e longo banho, de fazer a barba e de ir almoçar com a Sónia. Contar tudo e saber de todos. Voltar à normalidade no tempo que me resta.

No mp3 - The End - The Doors (tinha de ser este enorme cliché)

Dia 28 ::: 03-04-2007 ::: A caminho de Mendoza

Sobre este dia, nem fotos nem histórias. Acordei tarde, só com tempo de comer qualquer coisa e seguir para o Terminal. O destino, Mendoza. A viagem, feita a dormir. Mas antes, ainda tempo de ganhar uma garrafa de vinho num jogo de Bingo feito no autocarro. A garrafa, essa ficou pelo caminho algures em Mendoza. Também, depois de o rapaz do autocarro dizer "Cuidado que te caem os dentes" quem é que tinha coragem de o provar?

No mp3: Country Road – Não sei o nome da banda. Parece que estou na fase das músicas na cabeça… O que é que se há-de fazer? E não, também não tenho isto no meu leitor.

Dia 27 ::: 02-04-2007 ::: Salta

Salta, la linda é assim conhecida por ser entre os Argentinos a mais bela cidade da Argentina. O nome deve ser antigo porque hoje em dia Salta é uma cidade comum. Grande, com prédios e caótica. O centro concentra quase todo o interesse.

Passei a manhã no topo da colina à qual Salta está encostada. Subi de Teleférico e de lá de cima fiquei a olhar para a cidade. Dali vê-se tudo. Uma cidade geometricamente desenhada (como todas as cidades na Argentina), tirada a regra e esquadro. Polvilhada de prédios e de árvores. Mais ao longe os prédios vão-se desvanecendo dando lugar ao verde. É uma espécie de degrade. Ao longe, percebe-se não há nada. Na Argentina, o espaço entre cidades abunda. É um enorme espaço cheio de nada. Aqui não é excepção. O acaso fez-me encontrar com os meus companheiros de quarto do hostel. Dois canadianos bastante simpáticos. Resolvi ficar por ali mais um pouco. À conversa. Conversa estúpida só. Nada de sério. Esteve-se bem.


O centro é uma mistura engraçada. Alternando vários estilos, vemos casas coloniais, edifícios rasos tipicamente sul americanos, igrejas com traço marcadamente espanhol, mas tudo sempre com o inconfundível toque argentino. A praça central é acolhedora e agradável. A catedral é no mínimo interessante. Vermelha e dourada, salta à vista desde longe. Infelizmente não se podia entrar.






















Foi assim que passei o meu último dia em Salta. Nas ruas. A ver a cidade por fora e a tentar tirar o melhor partido das poucas horas que me restavam ali. De resto, essa noite havia festa no hostel e por isso contava deitar-me tarde. Como a saída para Mendoza no dia seguinte era a meio da tarde não contava ter tempo para grande coisa.

À noite estava programado um curso de empanadas no hostel. Infelizmente uma súbita doença do cozinheiro impediu essa formação, pelo que acabámos todos à conversa a comer empanadas compradas na loja em frente. A noite passou-se com cervejas e matrecos, histórias de viagens como sempre. Muito riso e muitos conselhos a quem ia para de onde eu vinha.

No mp3: Não sei o nome – Jack Johnson (nem tenho a música no mp3 mas passei o dia com ela na cabeça)

Há rigorosamente 1 ano...

Por estas horas estava a instalar-me em casa do André. Daí a nada receberia as boa-vindas da Sonics, do Mario, da Maria, da Tânia e da Mónica. Arrancava a segunda parte desta história. Começava uma nova fase na minha vida. Uma de que me lembro todos os dias sem excepção. Com saudade mas feliz pelo que vivi naquela cidade onde tudo funciona na perfeição, até os seus defeitos. Que saudades "Mi Buenos Aires Querido".

Dia 26 ::: 01-04-2007 ::: A caminho de Salta

De volta à Argentina. Sinto-me mesmo em casa neste país.


5121 km em 26 dias. Em linha recta. Porque na verdade foram muitos mais.


Passaram-se 12 horas desde que saí de Uyuni. De volta à Argentina os objectivos são claros: chegar o mais depressa possível a Salta. Espera de 1 horita e logo segui para Salta. A primeira parte da viagem foi feita a dormir. É um tipo de paisagem sem nada de especial que justifique a abertura de pestana. As únicas excepções, foram duas paragens forçadas pela polícia. Entraram no autocarro, pediram documentos, verificaram vistos. Não sei se estavam à procura de alguma coisa em específico ou se fazem isto com todos os autocarros que vêm da fronteira com a Bolívia. Não sei se era pelas metralhadoras na mão, mas fui invadido por aquela ansiedadezinha estúpida. Tipo como quando somos mandados parar pela BT e apesar de termos bebido água toda a noite trememos quando vamos soprar ao balão. Não que já tenha passado por isso. Nunca fui mandado parar. É uma das frustrações que tenho. Acho que vou tentar provocar isso. A partir de hoje andarei sempre a 230 km/h na autoestrada. Ou se calhar não. Acho que é melhor pensar noutra estratégia.

Já a segunda parte da viagem é diferente. Passando por Jujuy, faço de autocarro o passeio que costumam fazer as excursões nesta zona. Sempre junto à Quebrada de Humauaca, enormes paredes de pedra erguem-se diante de mim. Verdes, vermelhas, amarelas, por vezes até roxas. O fenómeno é conhecido em todo o mundo. Os diferentes minerais existentes nesta zona conferem as várias tonalidades à pedra. É uma vista inesperada e que apesar de repetitiva não nos permite afastar os olhos. Aqui e além um cacto marca presença. De resto, pouca vegetação. A estrada vai descendo a montanha numa enorme serpente. E às 16h chego a Salta.








Após consulta do guia percebi que havia na cidade dois backpackers hostel. Além de já saber que têm qualidade aceitável (se excluirmos o episódio de S. Pedro de Atacama) tinham a vantagem de ter uma pessoa no terminal a fazer a recepção. Lembrei-me da estratégia de El Calafate e tendo em conta que o autocarro vinha apinhado de israelitas (já os distinguia pelas famosas sandálias aos buracos entretanto tornadas moda em todo o mundo) não fui de meias medidas. Cheguei ao pé do recepcionista e disse "Qual é o hostel para onde vão os israelitas?" ele respondeu e eu disse "Então vou para o outro!". Ele riu-se. Eu não me orgulho. Mas não me arrependo também.

Instalado na nova casa, trato das diligências. Um mapa de Salta para ver o que fazer e sigo para um café. É altura de confortar o estômago e de definir planos. Ao fim de quase um mês de viagem intensa, o cansaço (físico e psicológico) começa-se a notar. Já não faltam muitos dias para o fim da viagem, o budget já há muito foi ultrapassado e estou agora em alta contenção de custos. Decido finalmente a última paragem: Mendoza. A alternativa era Córdoba mas acabei por optar por Mendoza porque sabia que em Córdoba o melhor eram as montanhas e eu não ia ter hipótese de as conhecer. Em Mendoza, estava a oportunidade de fazer sky diving muito barato (segundo me tinham dito em Ushuaia) e reencontraria a Corinna, a alemã que fez parte da viagem comigo (de Ushuaia a Punta Arenas). Era acabar como havia começado. Nesse sentido e no sentido de regressar à cidade que conheci na primeira incursão fora de Buenos Aires.

Em Salta não faria nenhuma excursão. A Quebrada já eu a tinha visto na viagem, o trem das nuvens estava fechado. E fora isso restava conhecer a cidade. Passaria assim o dia seguinte. Depois então seguiria para Mendoza.

A noite foi passada com gente porreira do hostel. Também nisto é giro viajar sozinho. Conhecemos tanta gente todos os dias e separamo-nos delas tão depressa, que saber o nome e a proveniencia delas começa a não ser indispensável. De um grupo de 5 ou 6 pessoas com quem jantei nessa noite recordo apenas uma rapariga que era designer na BBDO em Buenos Aires. E porque me ficou na memória por questões de afinidade profissional. O resto das pessoas, recordo-me da presença delas. Recordo-me até de algumas historias e conversas. Mas as caras e os nomes vão-se perdendo com o tempo. No dia seguinte já não sabia o nome de ninguém. Parece que só ficou o essencial. O superficial foi excluído automaticamente pela memória. As informações que se acumulam são já demasiadas para decorar tudo.

No mp3: Clandestino - Manu Chao (a música manteve-se porque está associada à aventura da viagem e à presença dos amigos polícias)

Dia 25 ::: 31-03-2007 ::: Uyuni e o voltar à Argentina

O dia foi um bocado secante. Já tinha dito que Uyuni pouco ou nada tinha para se ver. E confirmei-o no dia seguinte. Já com bilhete comprado, deixei o hotel bem cedo. Parei na praça principal em busca de um café onde comer. O problema é que era feriado e não havia rigorosamente nada. Sozinho numa cidade sem nada, a sentir outra vez falta de um grupo, o dia afigurava-se desesperadamente desinteressante. Acabei por encontrar um quiosque aberto onde me sentei a comer e a escrever. Foi aí que conheci um casal de argentinos cujo nome já não recordo. Simpáticos, foram uma boa companhia para um dia parado.

O centro




Depois de andarmos às voltas pela cidade em busca de lã de Llama que a rapariga insistia em comprar ali por ser muito mais barata que na argentina, resolvemos visitar o famoso Cementerio de los trenes. Era a única coisa ali para conhecer e diga-se que é manifestamente pouco. É engraçado por ser uma amálgama de metal. Carris, carruagens e máquinas e outras velharias dos caminhos-de-ferro ali são largados a envelhecer e a enferrujar. O ambiente é no mínimo estranho mas a piada esgota-se rapidamente. Para juntar à festa, ao longe, um grupo meio estranho de locais está escondido numa carruagem. Não sei o que estariam a fazer mas achámos melhor não descobrir. Não valia a pena o risco. Além disso, começavam a ser horas de comer alguma coisa porque eu tinha a camioneta daí a poucas horas.


A caminho do Cementerio de los Trenes.

O cemitério. Ou o que eu consegui fotografar dele.


De volta ao centro da cidade, era agora tempo de fazer horas. Instalámo-nos num café de um posto de turismo e aí fiquei a perceber que fiz um péssimo aproveitamento da bidimensionalidade do salar de Uyuni. Uma exposição de fotografias mostrava ideias fantásticas que não eram nada difíceis de reproduzir. Paciência. Fica para a próxima.

Boas ideias = Boas fotos.


Às 19h00 era hora de ir para a camioneta. Numa enorme rua, imensos autocarros amontoavam-se a carregar passageiros. Entre uns (poucos) modernos, a maioria era ferro velho. O meu não escapava à regra. Ora se já estava ansioso com a viagem (pelo meio de deserto, sem estradas, com ravinas altíssimas e nenhuma segurança) ainda mais fiquei quando vi o "bólide" que me ia levar. Minúsculo, com rodas enormes, malas em cima do tejadilho e completamente podre por dentro. O cheiro não era muito agradável. Mas havia de ser pior mais à frente. Pelo sim pelo não, enviei uma sms à mais-que-tudo a dizer a camioneta em que ia, como se chamava a companhia, a que horas saia de Uyuni e a que horas chegava à fronteira Argentina. À resposta "Tenho motivos para estar preocupada?" não tive coragem de responder. A verdade é que nem eu sabia.

O autocarro era igual. Só que mais podre. A estrada... era bom era.


E aí vamos nós. Poucos km depois de Uyuni, entramos pelo meio de um deserto de areia interminável. Aqui e além o autocarro atolava na areia. Foi aí que percebi a função do outro senhor que ia ao lado do motorista. Saia do autocarro com uma pá e ia escavando à frente do autocarro. Estou feito… Para me distrair e não fazer filmes (eu faço muitos filmes) decidi iniciar conversa com as outras duas pessoas não nativas e da minha idade que ali estavam. Um inglês e uma sueca. Começámos com a conversa do costume. Trajectos, onde estivemos, onde vamos, o que gostámos mais, impressões, etc. etc. etc.. Estávamos nós no tema política (outro tema típico nestes encontros culturais) quando fazemos uma paragem para ir à casa-de-banho. Foi aí que percebi que casa de banho não é para todos. A senhora que ia à minha frente, por exemplo, assim que desceu do autocarro deu um passo, subiu a saia e foi ali mesmo. Um belo xixi. Eu atrás, estava trilhado entre a senhora e a pessoa que estava atrás de mim à espera de sair do autocarro. Foram momentos de habilidosa tentativa de fugir à corrente enorme que se formava mesmo ali à minha frente. Consegui sair ileso, que é como quem diz, seco.
Seguimos viagem. Alguns erros no trajecto levam o motorista a improvisar. Já tinha dito que nesta zona da Bolívia não há estradas, ou praticamente não há. O caminho faz-se em cima de areia, por caminhos de cabras e, nesta altura, por aquilo que me parece ser um rio seco. A conversa esgota-se no cansaço dos meus companheiros de viagem. Resta-me então dormir. O que consegui, ainda que a espaços fosse abrindo os olhos. Mas o facto de olhar pela janela e ver que estávamos num caminho esburacado estreitíssimo com uma ravina de 50 metros a pique ao meu lado (o luar continuava cheio e para mal dos meus pecados a iluminar tudo) fazia-me ter uma repentina e enorme vontade de os fechar outra vez.
Deviam ser umas 6 da manhã quando parámos. Tinham-me dito que o autocarro era directo à fronteira. Afinal, tinha de mudar. Saí e olhei o outro autocarro. Era mais novo. Grande. Espaçoso. Era um upgrade. Ou não. O autocarro ia cheio e boliviano que se preze não espera por uma casa de banho para fazer o que tem a fazer. Faz o que tiver que fazer onde tiver que fazer. O cheiro dentro do autocarro era nauseabundo. Durante os primeiros tempos tive de me controlar. Depois, felizmente, adormeci. Quando acordei estava na fronteira com a Argentina. Atravessaria a fronteira a pé. Num processo pouco demorado (uns 30 minutos do lado boliviano) disse adeus à Bolívia e a tudo o que de fantástico ali tinha visto. Fazia promessas de voltar para ver o resto. Mas naquele momento estava mesmo feliz por estar de volta à minha linda Argentina.

Promessas de volta. Mas por agora, muita felicidade por estar de volta à Argentina.


A meio da ponte que liga os países.


No mp3: Clandestino – Manu Chao

Tuesday, November 06, 2007

Dia 24 ::: 30-03-2007 ::: Salar de Uyuni

E ao terceiro dia, o ansiado Salar de Uyuni. A saída ainda de noite esconde ao longe o branco do salar. Entre risos e músicas, avançamos em linha recta. O sol levanta-se lentamente e vai revelando o espectáculo que se avizinha. Imaginem 12 mil metros quadrados (sim, isso mesmo) de uma plataforma lisinha, branca, totalmente coberta de sal (em alguns lugares com 7 metros de profundidade). Foi um lago salgado em tempos. Formado quando se formaram os Andes, secou e deixou para trás o sal, ouro branco das gentes desta terra. Agora imaginem umas zonas em que chove e se acumula uma pequena camada de água sobre o sal. Parada, porque não há vento, reflecte na perfeição o céu, escondendo a linha de horizonte. Estamos perdidos. Não sabemos o que é terra nem o que é céu. Não há nada à volta. Não há referências. O mundo aqui é a duas dimensões. E no meio, bem mais à frente, um enorme coral seco (do tempo em que isto estava debaixo do mar) ergue-se, espetado por enormes cactos gigantes. O Salar de Uyuni não se escreve. Vê-se, sente-se, cheira-se e ouve-se. Sabe a sal e revela-se no seu silêncio gritante. Só vos posso dar algumas imagens. O resto, só mesmo indo lá. Eu quero voltar.














Campas de pessoas que antigamente se perdiam no salar. Aqui foram enterradas.







O estado do pneu depois de 2 horas a andar sobre água salgada.




























A ausência de noção de profundidade faz com que alguns pareçam anões.























As Salinas.



E assim terminava o salar. Imediatamente à saída, um pequeno povoado onde parámos para almoçar. Ali, as pessoas vivem do sal. Ou o extraem, ou vivem dos turistas que ali se deslocam.


O meu mais recente amigo boliviano com quem joguei futebol.

Llama. O melhor amigo do Homem boliviano?

Ficámos ainda um bom bocado naquele povoado. Depois, hora e meia de jeep para o final, com chegada a Uyuni, a cidade que dá nome ao salar.


E assim se partia mais um grupo. Chegados à cidade de Uyuni, gravámos dvd's com as fotos de todos e cada um seguiu o seu caminho. Muriel regressava a S. Pedro Atacama com o Simon em viagem directa. O quarteto irlandês seguia para Potosi. Eu iria ficar em Uyuni uma noite, tempo necessário para poder apanhar um autocarro em direcção à Argentina. Não me agradava ficar ali sozinho mas lá teria de ser. Nesse dia não havia transporte. A cidade não tinha nada. Era desinteressante e estava novamente sozinho. Escolhi onde passar a noite, matei saudades da família na net, comi uma pizza e fui dormir. À espera que o tempo passasse depressa.


No mp3 – Porcelina of the Vast Oceans – Smashing Pumpkins

Monday, November 05, 2007

Dia 23 ::: 29-03-2007 ::: Altiplano Boliviano II

O dia começa mal. Não, não adormeci. Antes pelo contrário… difícil foi dormir de todo. Os sintomas começaram ainda de noite mas não lhes dei importância. Afinal eram normais naquela altitude e o dia tinha sido cansativo. Começou levezinha, cresceu aos poucos. Quanto tentei fazer alguma coisa (ben-u-ron) já era tarde. A dor de cabeça era absurda. Tinha as veias inchadas e a cabeça parecia que ia explodir. A minha cama devia estar inclinada e eu devo ter dormido com a cabeça abaixo do corpo. Não sei. Sei é que passei a noite a ser acordado pela dor e de manhã não abria os olhos. Nem sequer conseguia mexer a cabeça. Simon, o grande, tem a salvação. Atasca-me com folhas de coca e uma outra planta qualquer que, dizia ele, também ajuda. Meia hora depois estou fino e pronto para outra! A boa notícia também era que durante a manhã o caminho descia muito pelo que à hora de almoço estaria a pouco mais que 2000 metros.

Bendita Coca. E a outra plantinha também.

Pés a caminho, então. A viagem faz-se a um ritmo mais rápido. De volta à vastidão imensa do nada fazemos agora muito menos paragens.

Simon. Ei-lo aí à direita!

Back to the road.

A primeira é junto ao Arbol de Piedra. É uma formação rochosa bem conhecida que muitas vezes aparece em powerpoints que aqueles vossos amigos de baixa produtividade laboral vos enviam para baixar também a vossa aplicação na labuta. Basicamente, estamos a falar de uma enorme planície a perder de vista de onde, do nada, aparecem umas formações rochosas, isoladas, como picos de uma montanha submarina que se erguem do mar. A mais conhecida é o tal Arbol. Aquilo que a formou, também a destruirá. Estas formações são fruto da erosão de rochas vulcânicas através do enorme vento e tempestades de areia que assolam aquela região. Um dia, já ali não haverá nada para contar a história.

O Arbol de Piedra.

Simon. Já era Motorista, guia, companheiro, cozinheiro, médico e despertador. Agora era também a assistência técnica em viagem. Nada de grave diz ele. E eu acredito.

Já cá faltava uma foto com ele.

Egipto na Bolívia. Outras formações junto ao Arbol. O problema foi subir...



Arrancamos de novo. Nesta altura já começo a sentir uma certa ansiedade pelo dia de amanhã. É o dia da grande atracção. A tal de que pouco ouvi falar mas que me entantou em 2 ou 3 frases descritivas. Mais umas paragens aqui e ali para umas fotos de circunstância (ou não) com Guanacos ou sem eles, sempre envolvidos pelo laranja do chão e o azul do céu. Sempre sozinhos. Completamente sozinhos.

Fotos de circunstância

(ou não)

Com Guanaco.

ou sem ele.

O chão era assim.


E chegámos ao local de almoço. Laguna Hedionda (hmmm, nome sugestivo) é um aglormerado de 2 ou 3 casitas junto a um lago quase seco de sal e lama polvilhado por flamingos. De resto foi aqui que tive contacto com uma faceta desconhecida (pelo menos para mim) destes simpáticos bicharocos. É que meus amigos… se vocês largam pragas às pombas que se descuidam de quando em vez em cima das vossas cabeças ou ombros, não queiram tomar contacto com as gigantes bazucas anais dos flamingos. Não, não fui bombardeado. Mas pude observar o fenómeno de perto. Um enorme jacto de longo alcance é o suficiente para garantir que ninguém se chegará muito perto deles. Ao longe, os cumes cobertos de neve lembram-nos que apesar do sol que escalda a pele, está frio. Mesmo que o turbilhão de sensações que nos corre o corpo desde o início da excursão não nos permita ter noção disso.




Ora bem... o meu pé é um 46. Aquilo ao lado esquerdo é uma bala de flamingo.




Olha... vegetação... E logo dente de leão! Diz que faz bem à vesícula.


Almoçámos e seguimos viagem. Cruzamo-nos com um vulcão. Activo. Menos simpático que o de Pucón. Solta um fumo feio. Tem as encostas cobertas de verde e amarelo do enxofre que larga. Tem um ar ameaçador. Mesmo visto de longe, ao contrário do Villarica. Ao nosso lado, um sinal de trânsito. Bem, penso eu, já não falta tudo. Daqui por uns anos é capaz de passar aqui uma estrada.




E no meio de uma enorme planície, talvez a maior que vi, o leito seco de um lago enorme é cortado a meio por uma linha de comboio. Liga o Chile à Bolívia e passa ali um comboio por dia. Tendo em conta que vemos a linha até ao horizonte para um lado e para o outro (e também porque era um azar que em 24 horas do dia o comboio passasse naquele preciso momento) decidimos brincar um bocadinho.



Eles diziam que até nem se estava mal. Eu pensava "estes gajs estão doidos, tenho as costas espetadas num ferro!". Quando cheguei a casa e vi as fotos é que percebi que a diferença de alturas distorce os pontos de vista (e duas ou três vértebras também).

Já estamos no final da tarde. As horas dentro do jeep passam a correr e eu nem dou por elas. Estou demasiado entretido com a paisagem. Paragem para reposição de stocks. Água, bolachas e mais algumas coisitas. No meio do rigorosamente nada, meia dúzia de casas. Um minimercado e pouco mais. Quatro ou cinco miúdos brincam por ali. Feitas as compras, mais uma hora de viagem.

A porta do carro. Um dia terá sido assim.


No meio do rigorosamente nada, faz-se um zoom...

E encontra-se isto.

Desta vez vamos no meio de um cereal típico daqui. As cores combinam com o que já víamos há dois dias: amarelo e vermelho. É ao final da tarde que acaba o segundo dia da jornada, à porta do Hotel Marith En. Deve ser a tradução para Meridien. É uma casa, de um único andar. Quartos duplos e sala de jantar. E um balneário. É isto. Mas isto não é a particularidade principal. Aquilo que salta à vista é a cor por dentro. Branco. Branco e mais branco. Afinal, estamos num hotel de sal. Sal retirado do famoso Salar de Uyuni. Paredes, chão, cadeiras, mesas, mesas de cabeceira, bases das camas, tudo, mas mesmo tudo, é feito de sal aqui.


O Meridien da Bolívia.

Paredes, chão, cadeiras, mesas...

corredores inteiros...

mesas de cabeceira, bases da cama... tudo feito integralmente em sal (ok entre as camas é pedra mas temos de pousar as coisas em algum lado ou não?)


Dinner is served.


Lá fora o Salar revela-se ao longe. Revelar-se-ia melhor à noite quando o gerador se apagasse, já depois do jantar. Fiquei lá fora sozinho a ver. Estava sozinho e não me sentia como tal. Um luar incrível dava luz a tudo. A lua, perfeitamente redonda, fazia agora notar melhor o salar que se reflectia, branco como se fosse de dia. Uma paisagem única. E o melhor estaria reservado para amanhã, quando saíssemos ainda de noite em direcção a esse mar de ouro branco.



No mp3: Enjoy the Silence - Depeche Mode

Saturday, October 27, 2007

Dia 22 ::: 28-03-2007 ::: Altiplano Boliviano I

O dia começa cedinho. Sem adormecimentos que é para não destoar. Acordado pelo Miguel, salto da cama (feliz por não ter tido a companhia de um rato, ou pelo menos por não me ter apercebido disso) e arrumo as coisas todas. Antes de sair, deixo de presente ao Miguel (que já tinha saído para outra excursão) um mapa das Torres del Paine que tinha a mais. Deixei porque ele disse que era um sitio onde gostava de ter ido mas não conseguiu. Achei que seria simpático. Ou então foi por pirraça. É capaz, é.
Pequeno almoço tomado, lá estou eu à porta da agência de turismo para arrancar na aventura. Fui o primeiro a chegar. Pouco depois chegam os irlandeses da véspera. Consigo finalmente saber os nomes deles. Fiona e Mick, namorados, Helena e Ginger. Pouco depois chega o elemento extra: a Muriel. Uma francesa tímida. Simpática mas de poucas conversas.

Chegado o dono da agência, novo aviso para não perdermos o talão da fronteira. Primeiro problema. Uma das irlandesas não o tem. Perdeu-o. Pode ser que não haja problema. Também pode ser que pague multa. Logo se vê.
E ei-lo. O incrível, o maior, Simon! O nosso motorista/guia/cozinheiro/assistencia em viagem. Com as feições típicas de um boliviano (ou o que eu considero como feições típicas) mostra-se sorridente e muito simpático. Há um pequeno senão. Não fala uma palavra de inglês. Resultado? Além de turista sou tradutor.

Arranca a viagem. 6 turistas, um guia e um jeep que já teve melhores dias. A música, vai de U2 a Manu Chao passando por Shakira, Madonna e Michael Jackson. Isto promete.
A saída do Chile faz-se sem problemas. O Simon usa os seus contactos e a Helena passa sem problemas. Estamos numa fronteira tripla. Passada a aduana chilena, para a esquerda vai-se para a Bolívia, em frente vai-se para a Argentina. Viramos à esquerda. A Argentina fica à espera do meu regresso. Confesso que esta era a parte que mais receava da viagem. Já sabia que a Bolívia nada tinha a ver com Argentina, Chile ou Uruguay. Era um país pobre, com pouco. Muito pouco. Ia andar 3 dias no deserto num jeep sem saber quais eram as soluções em caso de avaria ou acidente. Não me parece que telemóvel fosse opção. Hehe. Mas havia de correr tudo bem! Não sei porquê, mas acho que o facto de estar aqui hoje a escrever sobre isso é capaz de indiciar alguma coisa acerca desta minha última previsão...

Em frente Argentina. À esquerda o próximo destino: Bolívia.

Chegamos à fronteira da Bolívia. Fronteira que é como quem diz. Eu chamar-lhe-ia o casebre onde se trata da papelada. Atenção às fotos.

Fron.... quê?

Hum.... um autocarro todo podre abandonado ali mesmo na fronteira. Inspirador...

E mais inspirador se torna quando percebo que aquilo é a casa de banho da fronteira.

Cruzámo-nos com um outro grupo que estava a chegar. Dizem-nos muito bem da excursão. Correu tudo bem e a aventura foi fantástica. A paisagem não é possível descrever. Conversamos e vamo-nos conhecendo enquanto tomamos um pequeno almoço antes de arrancar. Pão, manteiga, leite quente com chocolate. Nada de mordomias que aqui não há disso. Nem sequer seria consonante com o espírito da aventura. Grupo formado, hora de arrancar. A moral era alta.

Grupo formado e moral em alta. Começa bem!


Primeira paragem. Laguna Verde. Um inerte, sem expressão (mais azul do que verde, diga-se) estende-se à nossa frente. Por trás está o Sairecabur, o vulcão que marca a fronteira entre Chile e Bolívia. Já nos geisers o tinha visto ao longe. Ali é mais imponente. Leva-nos a pensar que ainda bem que está extinto.


A esta altitude, o ar é gelado. Estamos a qualquer coisa como 4000 metros de altitude. Tudo é feito muito lentamente. Ninguém corre e o corpo parece não responder. Parámos ali por uns minutos. Aquele é o verdadeiro marco de início de viagem. E para começo estamos bem.


De regresso ao jeep o Simon diz-nos que a próxima paragem são umas piscinas de águas termais onde tomaremos o nosso único banho (?) nesses três dias. Pelo menos de água quente. Há que aproveitar. Também diz que as termas onde se costuma parar não são aquelas a que nos vai levar. Assim poderemos estar sozinhos, tranquilos e aproveitar ao máximo a estadia nas termas de maior altitude do mundo. E lá chegámos uma meia hora depois. O lugar era no mínimo inóspito. No meio de um gigantesco planalto rodeado de montanhas, ali estavam as termas. Uma minuscula piscina, com uma pequena construção de apoio dividida em dois compartimentos. Um para homens, outro para senhoras. Ao longe a casa de banho. Bem longe. E ainda bem... porque aquilo mais não era que três paredes (sim, três) com um buraco no meio onde se iam acumulando as memórias gastronómicas dos turistas que por ali passaram nos últimos, vá lá, 20 anos. Eu baptizeia de casa de banho dos desesperados. Porque era preciso mesmo estar nesse estado para lá ir.
Chamar água quente áquilo é no mínimo simpático. Eu diria que só não está à temperatura ambiente porque estaria congelada. O que dá a sensação de que a água está quente é o frio que está cá fora. A ventania que se sentia convidava pouco a banhos, fazendo-nos antever a tortura da saída da água. Mas caraças. Passeio é passeio e nós estavamos decididos a ter tudo a que tinhamos direito.

À esquerda, as termas com os seus, vá vamos chamar-lhes assim, balneários. A meio o nosso jeep. Ao longe, bem ao longe, minúsculo e depois daquelas duas pessoas: A casa de banho dos desesperados.

Queremos tudo a que temos direito! Nem que seja preciso sofrer!

Mais transparente, mais puro é difícil.

A ventania que nos castigou à saída da água revelou-se útil para secar as toalhas. Aventura selvagem promove as ideias.

Ao som de U2 (bem ao jeito dos meus companheiros irlandeses) lá seguimos estrada fora. Estrada é como quem diz. Ali não há disso. Apenas terra e pedras. Anda-se por onde se quiser, mais à direita ou à esquerda. Nós vamos aqui e outro jeep vai 500 metros à nossa direita. É à vontade do freguês. A paisagem é incrível. Um enorme corredor de planície onde caberiam sei lá eu quantas cidades do Porto estende-se até ao horizonte numa passadeira amarela/laranja enorme que não deixa ver de onde vimos nem para onde vamos. Aqui não há nada. Pouca vida além de nós. Um ou outro Guanaco (espécie protegida), um ou outro jeep de excursão ao longe e nós. Aqui não há telemóveis. Nem GPS. Nem tão pouco um mapa. Simon guia-se pelas montanhas. Já faz isto há anos e podia fazer o passeio de olhos fechados. Estar desligado do mundo daquela maneira é simultaneamente aterrorizador e óptimo. O mundo podia eclodir numa guerra nuclear. Ali eu não daria por nada. Respira-se paz e origem da Terra.


"Um enorme corredor de planície onde caberiam sei lá eu quantas cidades do Porto estende-se até ao horizonte(...)"

"(...) numa passadeira amarela/laranja enorme que não deixa ver de onde vimos nem para onde vamos."

"Aqui não há nada."


E eis a terceira paragem do dia. As fumarolas. Estamos a 5200 metros de altitude. A maior altitude que atingiriamos em toda a excursão. Somos avisados pelo guia que devemos andar muito de vagar. Se nos baixarmos temos de subir mesmo muito lentamente. Tudo tem de ser feito com calma. Como se estivessemos na lua. E a experiência deu-lhe razão. O entusiasmo toma conta de nós e acabamos por fazer coisas a que estamos habituados. Um salto aqui, uma corrida ali, um baixar e levantar rapidamente acolá. O resultado são tonturas e falta de ar. Muita falta de ar. As fumarolas não são particularmente espetaculares. Ainda para mais porque as que vi em S Pedro de Atacama são melhores e porque a esta hora do dia já se nota menos a actividade. No entanto, o cenário de no meio do nada se abrirem uma série de enormes buracos de várias cores é qualquer coisa que não se vê todos os dias.


Eis as fumarolas de maior altitude do mundo ao longe.





O espectáculo visual é lindo. O cheio é que nem por isso. Não se vê muito bem mas toda a gente está de mão no nariz. Bem... toda a gente menos eu. Eu estava na versão "felizmente não cheira".


Mais uma hora no meio deste gigante planalto que não acaba nunca e chegamos ao primeiro abrigo. Bem na hora do almoço. O dia não acabava ali. À tarde ainda havia mais coisas. Mas parariamos ali por umas horas para descarregar as coisas, descansar e comer. E para tomar contacto com umas folhas verdes pequeninas que diz que fazem muito dinheiro por aí. Diz que a maioria está na posse de, como é que se chama mesmo? Isso. Cartéis. Pois é. Simon, atento às dores de cabeça de alguns de nós (eu ainda não apesar de estar meio zonzo com a altitude) tráz-nos um saco cheio de folha de coca. A folha de coca (de onde obviamente se faz a cocaína) em si só não tem mal nenhum. De resto, mascada, ajuda a oxigenar o cérebro e por isso a tolerar melhor a altitude. Com dor de cabeça ou sem ela, claro que todos experimentámos. É só pegar numa quantidade pequena de folha, fazer uma bola com saliva e meter a papa entre os dentes e a bochecha. Depois chupa-se durante um bom bocado. O efeito que se sente é que a sensação de altitude é diminuida e a bochecha fica dormente. Pergunto ao Simon quanto daquilo é preciso para fazer um kilo de cocaína. Fica atrapalhado com a pergunta e meio em surdina responde que são perto de 200 kg de folha.

O ar esgroviado podia indicar outro tipo de consumo. Mas não. É apenas o resultado de 22 dias de viagem como mochileiro. A folha assim, não faz nada de especial. Só ajuda na altitude.


Almoço. A esta hora já o grupo está todo à vontade. Rimos, brincamos, mandamos piadas. Falamos de futebol e das viagens que estamos a fazer. Explicamos como fomos ali parar e o que faziamos antes. O que queremos fazer depois. E o que gostariamos mesmo de fazer depois. No meio, comemos uma salada de tomate com uns cereais parecidos com cous cous. Não há electricidade no abrigo. Há um gerador mas é ligado apenas por duas horas à noite para se cozinhar e comer. Depois desliga-se que o combustivel é pouco e caro.

Almoçados e já com as pernas menos moídas da manha intensa, seguimos para a segunda parte do dia. A ida à Laguna Colorada. Ali, juntam-se as três espécies de flamingos existentes no mundo, num lago que combina com a cor do casaco do típico flamingo cor de rosa. Não vale a pena descrever o lago. Basta ver as fotos. Aquela é a cor real. É incrível. Ficámos ali o resto da tarde. E ficámos bem. Quando voltámos já o sol se tinha escondido atrás das montanhas.

Senhoras e senhores, eis a Laguna Colorada. Palavras para quê?












À noite, depois do Spaghetti à Bolonhesa Boliviana aproveitámos o facto de ainda haver uns 45 minutos de gerador para carregar as máquinas fotográficas e para jogarmos um jogo estúpido ensinado pelos irlandeses. Consistia básicamente em cada um escrever o nome de uma pessoa famosa num papel e entregar a outra pessoa sem ela o ver. Depois essa pessoa colava o papel na testa e fazia perguntas aos outros sobre a pessoa em causa e tentava adivinhar. Dá para imaginar a cara dos bolivianos (os cozinheiros permanentes no abrigo e o Simon) a olhar para nós? Pois... qualquer coisa como estes tipos são anormais seria pouco. Já sem luz de gerador aproveito para vir cá fora. Não sei se estou contente ou triste por estar um luar cheio como nunca vi. Por um lado não consigo ver o céu estrelado que deve único. Por outro nunca tinha visto um luar iluminar tanto. Vê-se tudo à minha volta. Ao longe percebe-se o controno das montanhas. Agora sim, percebo porque é que nos livros d’Os Cinco, quando eles andavam de bicicleta à noite aproveitavam a luz da lua para poupar as pilhas da lanterna. Nunca achei que a Lua iluminasse assim tanto. Pensava que isso era tanga da Enyd. Parece que não. Foi a minha segunda descoberta no que toca a essa mítica colecção. A primeira foram os scones. Ainda estou é para perceber se a Zé era gira ou não. Mas isso agora não interessa. Um silêncio como nunca vi envolve-me. Geralmente as noites de silêncio em Portugal são acompanhadas pelos grilos. Ali perto do abrigo os únicos animais que vi além de nós eram moscas e morriam todas. Não se ouve absolutamente nada. Chega a ser assustador. De longe a longe, lá ao fundo um relâmpago ajuda a luz da lua.

Hora de ir dormir que amanhã é outro dia de acordar cedo e cansativo.

O abrigo.

A Lua lá no alto preparava-se para ser o candeeiro da noite.

No mp3: Where the Streets Have no Name – U2

Nota: Peço desculpa se o post não é particularmente interessante. Mas além de não ter cábulas (o meu diário acabou aqui), acho que esta excursão vale mesmo mais pelas imagens do que pelas palavras. Essas, não fazem juz ao que se vê. Só estando lá mesmo.

Tuesday, October 16, 2007

Eu digo Piaçaba! E tu?!

Este blog já habituou os seus leitores a várias coisas. A destacar:

1- A fraca qualidade do estaminé.

2- A associação a causas sociais que exigem o apoio de todos nós. Movimentos que devem ser difundidos por todos para defesa e ajuda de quem mais precisa.

Foi assim quando pedi para ajudarem a minha prima e será assim quando um dia vos pedir que participem no MAEFASBF - Movimento Anti Extinção do Flamingo Azul do Sul do Burkina Faso.

Por agora deixo-vos com um outro movimento que merece amplo destaque entre todos nós:

O Movimento do Piaçaba

Deixo-vos aqui o vídeo do seu mentor. Para que pensem. Vamos combater esta injustiça! Todos juntos! Agora!



Deixo à vossa consideração.

Ecos

"heeeeeeeeeeeeeeeey".............................................."eeeey eey ey y"

"Está aí alguém?!"...................................................."guém? ém? em?"

Podia ser a gigante caixa de ressonância que é a minha cabeça, mas não. Sou só eu a simular um eco aqui no blog, vazio após vergonhosa ausência super prolongada.

Após tempos de silêncio ao longo dos quais andei a tratar da minha vida (sim porque escrever blogues não dá dinheiro para todos) eis-me de volta para terminar o maldito relato da minha viagem. A tão pouco do final seria uma pena não o terminar.

E mesmo que enquanto relatei uma viagem de um mês o Gonçalo Gil Mata tenha tido tempo para ir de Buenos Aires a New York, tenha escrito um livro da mesma, feito exposições, tido 3 filhos, e feito mais 5 viagens de volta ao mundo, ainda espero ter desse lado um bocadinho de atenção. Mesmo que só porque não há nada melhor para fazer (e nós sabemos bem como isso é difícil quando o universo de que falamos é a Internet).

Será mais fotos e menos texto. As primeiras já estão prontas a mostrar, o segundo ainda nem está rabiscado. Mas é de esperar novidades para os próximos dias.

Stay tunned.

Thursday, August 02, 2007

A pausa estica a corda...

Dizia na terça-feira o record por volta das 8 horas:

Lucho Estica a corda.

"(...) solicitou à SAD portista mais uns dias para tratar de assuntos particulares. Uma versão “simpática” de uma história que está por contar, mas que contempla um nítido esticar da corda por parte do jogador (...)"

E dizia o Record 24 horas depois:

Lucho já conta a partir de hoje

"Lucho González já estará hoje no Estádio do Dragão para o treino matinal agendado e que antecede a viagem para a Holanda (...)"

E digo eu... A corda que o Lucho esticou era afinal um elástico.

E dizem vocês: "Mas que raio..."

Eu explico.

Também eu vou esticar a corda. Sim, era suposto terminar a viagem nos próximos dias mas uma sucessão de factos impediu-me de o fazer. Parto amanhã para novas férias, desta vez no Algarve, seguindo directo para... um campo de férias. É verdade. Vou animar mais uma (e pela última, suponho) vez! Estou feliz. Vocês não?

Portantos volta a inactividade ao blog. Até dia 20 de Agosto. Nessa altura estarei de regresso para terminar a jornada e prometo que vale a pena. Vem aí o Salar de Uyuni com as suas paisagens arrepiantes. Pensem nesta pausa como uma espera para crescer água na boca (que era o que eu mais queria nesta fase da viagem ou não estivesse num deserto). Até lá, espero que não se esqueçam deste estaminé. Que é como quem diz, cunhada, vê lá se não te esqueces deste estaminé. Porque os outros já se esqueceram. E ninguém os pode censurar...

Monday, July 30, 2007

Diz que fazem hoje três dias...

que passou um ano que parti para a Argélia. E tanta coisa se passou nestes 365 dias e 6 horas...

Estou de volta para finalmente acabar o raio do relato da viagem. O grave é que a partir deste momento não tenho as minhas cábulas pelo que o relato vai ter de ser todo feito com base naquilo que me lembro agora. Mas ainda está tudo bem vivo aqui, descansem.

Sunday, July 22, 2007

Faça uma pausa com alguma coisa.

Ora bem... confesso que falhei no meu objectivo. Hoje devia ter acabado o relato da viagem. Mas infelizmente os problemas técnicos do Blogger fazem com que cada post destes (cheios de imagem) sejam verdadeiramente uma odisseia de formatação. Por isso ainda faltam alguns dias de viagem para contar que não vão poder ser concluídos agora.

Sigo de férias uma semaninha (mas pera lá... eu já não estava de férias?) para Sesimbra. Assim que quando voltar termino o relato à velocidade que ia mantendo (temos de admitir que, tendo em conta a velocidade inicial, está fantástica).

Entretanto por falta de conexão para onde vou, devo também falhar o aniversário do Blog. É assim a vida. Mas prometo festejar com um belo mergulho na piscina (se o tempo deixar).

E de modos que então assim sendo, até daqui a uma semana.

Abreijos.

# Momento de Publicidade #

Faço uma pausa no relato da viagem para ajudar uma prima minha. E dizem vocês:

"E o que é que eu tenho a ver com isso?"

E responde eu: "Nada mas também não vos custa ajudar a tornar-me mais importante para a minha prima pois não?"

Assim sendo, vamos ao que interessa:

Tenho uma prima, na verdade tenho várias, mas só uma é que está a concorrer a um concurso de desenho de T-Shirts.

Para ajudar a ganhar basta clicar na imagem em baixo, registar-se no sítio da internet receber em poucos minutos a password no vosso e-mail, e votar!! Se assim o entenderem: atribuir o máximo de 10 pontos em cada um dos quatro critérios.

Desenho Mangacurta.com - Amar
Se não conseguirem, basta clicar no endereço abaixo:

http://www.mangacurta.com/desenhos/candidatura.2007-07-12.5864373166?movimento=fil

Vamos todos ajudar!!

Vá lá! Sejam simpáticos! E toca a dar os 10 pontos! Não por favor! Mas porque o trabalho merece! Vá... vamos lá. 1, 2..... 3!!!!

Dia 21 ::: 27-03-2007 ::: S. Pedro Atacama

Acordei certinho! Tem acontecido demasiadas vezes. Acho que estou a ficar doente. Mas há aqui uma explicação plausível. Acordei tão cedo que acho que nem tive tempo de mergulhar em sono profundo.

São 4 da manhã e é-me servido o pequeno-almoço que pedi na véspera. Um pão seco com queijo velho e um café com leite que não tive coragem de beber até meio. Paciência. Também não há tempo para mais porque a carrinha está aí. Começa a viagem de 2 horas até aos Geisers. E o que posso dizer desta viagem? Posso dizer que:

1- Não sei porque põe bancos na carrinha. Graças às crateras que são aquelas estradas, o tempo que passamos sentados no banco não justificam.

2- Obrigado ao senhor que decidiu não respeitar o aviso do guia e decidiu pôr uma mochila por cima do meu banco. Soube mesmo bem, depois de ter finalmente adormecido, acordar com um mochilão bem em cheio na tromba. Ah como eu gosto disso.

À chegada ao parque sou "acordado" (as aspas são porque não estava verdadeiramente a dormir, porque isso era impossível ali) pelo guia com as primeiras informações. E a primeira informação vem em forma de pergunta. "Porque é que estão aqui a estas horas?". Sim... essa era a pergunta que ia na mente de toda a gente. Porquê às 4 da manhã?? A resposta torna-se óbvia. Não é que os geisers so funcionem de madrugada. É que às 6 da manhã já há luz para os ver. E há outra questão. Enquanto o sol está baixo, as temperaturas são negativas. E isso permite ver melhor o vapor que sai dos Geisers. Tem lógica.

Quando saimos da carrinha olho à volta. O cenário é, no mínimo, estranho. Tudo árido, uma luminosidade que não deixa perceber as horas que são, um céu nublado, uma mistura de cores que varia entre o bege, o amarelo e o vermelho e aqui e ali do chão irrompem colunas de fumo. O parque está cheio. Todas as excursões aos geisers são feitas a esta hora.





As horas que se seguem são passadas a caminhar entre os geisers. Há grandes, pequenos, enormes e médios. Uns de actividade constante (na verdade não são geisers mas sim fumarolas) e há outros que param actividade por alguns minutos para logo irromperem rumo ao céu. Passo a explicar o funcionamento da coisa.

Por baixo do solo, há bolsas de água. A próximidade de lava aquece essa água a uma temperatura acima dos 100 graus. Depois, ser geiser ou fumarola depende do tipo de bolsa. Umas prendem a água. Ou seja, durante algum tempo não há libertação de vapor ou de água. O aquecimento da água começa a fazer aumentar a pressão dentro da bolsa até que se torna insustentável e a água rompe até a supreficie. Mais ou menos como se trilhassem uma mangueira até ela inchar e depois a largassem. Quando a pressão é equilibrada, o geiser para. Mas só até voltar a acumular a pressão necessária para rebentar de novo. Outros, pela abertura estáo em permanente funcionamento. São mais pequenos e são mais água borbulhante do que vapor. São as fumarolas. Tá percebido? Prontes então.


Geiser.

Fumarola.

Naquele ali deve-se ter viajado mais confortável...


Olhó Geisere!!!

Diz que a terra tá a pegar fogo.

As cores do enxofre.

Onde há fumo...

... nem sempre há fogo. (pelo menos à superfície)

Confesso que andar sobre um chão frágil (as instruções para não caminharmos junto aos geisers e fumarolas são constantes) que encobre uma enorme panela de água a ferver não é agradável. Aquele piso é, em muitas zonas, frágil e é preciso ter atenção a onde se está a pôr os pés porque podemos pisar uma zona sensível e o chão pode ceder. E o resultado de mergulhar ali não deve ser muito agradável. Que o digam os vários turistas que já ali morreram cozidos por não respeitarem as regras.

Um ex-geiser. É incrivel como aqui a terra parece ter veias como se de um corpo se tratasse.

E aqui parecem bolhas de queimadura.

E uma ferida aberta.

Do you really wanna know what's under this?

Tomámos um pequeno almoço simpático. Leite aquecido nas fumarolas e umas bolachinhas. A pressão sente-se aqui pelo que não é aconselhável fumar ou correr. Tem de ser feito tudo com relativa lentidão. E isso havia de me custar mais uma série de fotografias. Isto porque estou a caminhar pacificamente quando ouço ao longe: "Hey Ronaldo!!!". Sim... eram as miúdas da véspera. E pior, trouxeram as amigas. As dezenas de amigas. Era uma excursão escolar. E pronto. Fui obrigado a uma sessão com todas, individuais, com geiser, sem geiser, com fumarola, sem fumarola... enfim... Não podia correr porque não era aconselhável, de maneiras que fui apanhado. E não podia recusar. Um gajo tem de agradar aos fãs (mas não tirei nenhuma foto para mim).

Nada na manga? (efeitos especiais fabulosos!!)

Já na parte final, visita ao grande geiser. Na verdade eram geisers diferentes que pela erosão do solo se fundiram e se tornaram num só. Ali uma placa lembrava que deviamos seguir os carreiros indicados pelas pedras. Senão podiamos sempre ir tomar banho com os restos de turistas que ali cairam já. E não me pareceu agradável a ideia.

Ei-lo ao longe.

Vai um banho maria?

A última paragem no geiser era opcional. À nossa frente estava uma piscina de água naturalmente aquecida. Quem quisesse que lá fosse. Ora como quando eu pago quero tudo aquilo a que tenho direito não me fiz rogado. E lá fui eu. Mas aquilo é um bocado enganador. A temperatura (naquela altura uns 5 ou 6 graus) não era convidativa mas a ideia de água quente sempre atrai. O problema é que meia volta o esquentador desligava-se. Passo a explicar. Aquela piscina natural não é mais do que a acumulação de água de alguns geisers. Quer isto dizer que ora é gelada ora é escaldante consoante o geiser está ou não a funcionar ali ao lado. De maneiras que os sons que se ouviam eram qualquer coisa como: "frio! frio! frio!!!! QUENTE!!!! QUENTE!!!! QUENTE!!!! aaaaah que booooo FRIO!! FRIO!! FRIO!!! AAH QUENTE!!!! QUENTE!!! QUENTE!!!!" De maneiras que o banho não durou muito.

"Frio!! Frio!! Frio!!! QUENTE!! QUENTE!! QUENTE!! Ah tá bom! Foto agora!!!" *Click*


Segue-se mais um vídeo "simpaticamente" cedido por alguem via You Tube. Obrigado Deus por esta invenção!! Aproveito para explicar que os cones que se vêem à volta de alguns geisers são provocados pela actividade dos mesmos. Às vezes parecem mini vulcões de água. É um fenómeno de certa forma parecido com as estalactites e estalagmites. Então cá vai:


Foi hora de regressar. Mas a volta teria algumas paragens. Pelo meio do deserto de atacama, vi um mar de absolutamente nada. Enormes planaltos rodeados de montanhas. Algumas delas vulcões já extintos. Aqui e ali um Guanaco, um Llama. Até que fazemos a primeira paragem. Um conjunto de Llamas pasta ali mesmo ao lado. Alguns têm uns panos coloridos a enfeitar e outros não. É a diferença entre os domesticados e os nem por isso. São uns animais pachorrentes, simpáticos mas pouco dados. Não admitem aproximações e conhecendo eu o hábito de cuspirem em quem os irrita também não forcei muito a aproximação.

Deserto de Atacama.

Dois Llamitas domesticados. Mais atrás um nem por isso.

Mais adiante, nova paragem. Estamos agora junto a uma pequena aldeola. Não percebo. 10 casas, das quais um café para turistas e... uma igreja. Claro. Não podia faltar. Faz-me impressão como é que aquela gente vive ali. Cria os seus Llamas, no meio do nada. Do absolutamente nada. Não são mais de 10 pessoas. Vivem ali a vida toda. Não conhecem nada. Não sabem nada do mundo. Estão desligados de tudo o que saia daqueles poucos metros quadrados. E vivem felizes assim. Não entendo como. Não percebo como. Mas eles são felizes assim. E eu tudo bem. E ainda bem que ali estavam porque graças a isso pude provar a iguaria da viagem: Llama. Uma bela espetada de Llama. E não era má. Tipo porco, um pouco mais doce e mais gordurosa. Mas era boa. Ou então era da fome. Não sei...


Aí está ela. Sobre a cidade. Para vigiar os seus fiéis.

A cara de sofrimento é porque está quente e não pelo sabor.

Mais uma arrancada, mais uma paragem. São os primeiros cactos da minha viagem. São enormes, fantásticos, lindos. Iguais aos dos filmes de cowboys que vemos na televisão. Por momentos fui transportado para o ambiente Sancho Pança e Bonanza (lembram-se?). O cenário é igual. Deserto absoluto. Pedras por todo o lado, areia e terra. Alguma vegetação rasteira deprimente e os enormes cactos a vigiar as redondezas. Foi um momento da viagem.

Pança. Sancho Pança.

É capaz de picar um bocadinho.

A chegada a S. Pedro de Atacama faz-se às 14h. Combinado um jantar com alguns dos elementos da excursão, combino com o Miguel um almoço tardio. Era altura de descansar. E assim fiz. Directo ao meu quarto onde um sono retemperador me esperava. O corpo dormido da viagem aos saltos, a cabeça trocada pelas poucas horas dormidas e pelo enxofre respirado da manhã, a mente a pedir descanso para aproveitar o resto do último dia em S. Pedro. Deito-me na cama. Estico o corpo. E levanto a almofada para a ajeitar melhor. E acabou-se o sono. Assim que levanto a almofada um "simpático" rato sai disparado de lá. Ainda me faz uma festa na mão pelo caminho. E acho que foi o ponto alto de toda a viagem a nível de palavrões. Há que definir prioridades. Decisões não há. Já está imediatamente tomada. Ali não fico nem mais um minuto. Fecho a minha mochila bem fechada (estava no chão) e chamo o empregado. E digo eu:

Eu - "Oh amigo! Estava um rato debaixo da minha almofada!"

Ele - "Um gato?!?! E tens medo?!"

Eu - "Um gato?! Não é um gato! É um rato!!!"

Ele - "Pronto eu tiro-te o gato!"

Eu - "Não é um gato!!! É um RATO!!! Um roedor!!!"

Ele - "Um Raton?!?!?!"

Eu - "Isso pá! Um Raton!!"

Ele - "No!!!"

Eu - "Si!!!"

Ele - "No!!!"

Eu - "Si!!!"

Ele - "No creo!!!"

Eu - "Ai não? Então olha!!! (levanto a almofada) Mierda de Raton!!! Parece que não só estava como já estava há algum tempo!!!"

E pronto. Toca de pegar nas coisas, pagar o que tinha a pagar e bazar. Ia pro hostel do miguel. Não estava à espera de muito melhor. Mas ali não ficava de certeza! Saí cá para fora e logo escuto ao longe: "Hey Ronaldo!!". Ainda estive um momento indeciso. Acho que preferia voltar para o rato do que ter de as aturar ali outra vez. Mas felizmente desta vez limitaram-se a acenar ao longe. De maneiras que pés a caminho. New hostel, new life.
Quarto alugado, decidi passar vistoria. Assim que fecho a porta noto uma enorme frincha por baixo da porta. Havia ali rato de certeza! Não havia. Mas só descansei quando arrastei tudo o que havia para arrastar naquele quarto e vi todas as gavetas e debaixo de todas as almofadas (não, brincas). Além do mais, arrastei a minha cama para o meio do quarto para não estar em contacto com nada. Uma espécie de uma ilha. E calaftei a porta com uma tshirt. Não havia de entrar nenhum sacana de nenhum rato. Felizmente ninguém mais foi para aquele quarto. Ainda seria humilhante o tipo de figura que estava a fazer.

Com as emoções do Mickey, ficou condenada a soneca e a excursão de sandboard que estava a pensar fazer à tarde. Fiquei ali pelo hostel com um jardim muito porreiro cheio de camas brasileiras e bancos simpáticos. Aproveitei para pôr a escrita em dia até o Miguel acordar e irmos para o restaurante. O jantar, animado, serviu também para conhecer 3 companheiros na viagem de amanha. Ginger, Helena, Fiona e Mick. Irlandeses, simpáticos, animados. Boa companhia para amanhã. À mesa estavam também três americanas conversadoras e anti-bush. Foi portanto uma noite de boa companhia e animação. À qual se juntaria mais tarde o Zorro. Até teria tirado uma foto com ele. Não fosse ser paga e bem paga.

Jantar animado.

E tudo estava bem. Até que saí do restaurante. E aí estão elas! Mais um "Hey Ronaldo!!!!" e mais umas fotos. À segurança confirmei que não seguiam para Uyuni. Thank God. Era a despedida das fãs. E de S. Pedro de Atacama também.

Friday, July 20, 2007

Dia 20 ::: 26-03-2007 ::: S. Pedro Atacama

Acordo meio perdido. Não sei bem onde estou, para onde estou a ir nem que horas são. Ainda demoro alguns segundos a fazer o filme todo. Olho para a esquerda. Areia, céu, nuvens, nada. Olho para a direita. Não é diferente. É. Estou em pleno Deserto de Atacama. Devem faltar umas 2h30 para chegar a S. Pedro.

À esquerda, areia, céu, nuvens e nada.

À direita não é diferente. É parece o deserto de Atacama.

Depois do pequeno almoço fazemos uma paragem rápida. A cena de falar não falar com o outro rapaz e repete-se e trocamos apenas algumas palavras em espanhol. Não sei porquê havia qualquer coisa no tipo que me chamava a atenção. Havia de perceber mais tarde.

Mais 2 horas de viagem e chego a S. Pedro. Há um hostel da Hostelling Internacional pelo que as dúvidas quanto a alojamento não são grandes. O problema é que não tenho mapa. Mais uma vez vejo o tal rapaz. Tem um guia da Lonely Planet, conhecido por ter mapas práticos de cada cidade. Peço-lhe ajuda e ele responde que vai para o mesmo cruzamento que eu. E aí começa a conversa. Até que algum tempo depois de já estarmos a falar, faz-se a pergunta típica:

Eu - De onde és?

Ele - Bélgica. E tu?

Eu - Portugal.

Ele - Não és nada!!

Eu - Não sou nada? Sou sou!!

Ele - Eu também! Vivo em bruxelas mas sou português!

Eu - Ena! O primeiro português com quem falo na viagem!!

Ele - A sério?!

Eu - Se calhar falavamos em português não?

Ele - Pois.

E foi assim que conheci o Miguel. Alentejano de gema (até no sotaque) é emigrante em Bruxelas já há muito tempo. Boas notícias para mim. Tinha boa companhia para aqueles dias. E foi então que percebi porque é que o rapaz me chamava a atenção. Talvez tenha sido da camisola vermelha e verde a dizer Portugal. Não tenho bem a certeza. Mas é capaz!

Começamos a caminhar por S. Pedro. Ruas de terra batida, casas térreas ou de 2 pisos no máximo, nuvens de areia a voar pelas ruas... enfim... a cidade de zorro. Muito engraçada pelo cenário algo irreal que se vive ali. Posso dizer que talvez este fosse o tipo de cidade por mim estereotipada para a América do Sul. A cidade é feita de hostels, restaurantes, agências de turismo e pouco mais. Muito pouco mais. Na verdade havia de descobrir a falta de recursos da pior maneira mais tarde.




Cada um devidamente instalado no seu hostel, foi hora de irmos almoçar. Antes de sair do quarto tomei uma decisão que iria influenciar e muito a minha estadia por ali: vesti a camisola do Cristiano Ronaldo. O almoço foi tranquilo. Na praça central de S Pedro, simples, com um largo e edifícios normais a toda a volta. Não há nada de especial nesta cidade e no entanto o conjunto geral é interessantissimo. Foi também aqui que conhecemos um outro português. Algarvio, estava por ali com a sua mulher (que conheceriamos mais tarde). Filosofia de vida: trabalhar no verão em Portugal para viajar no Inverno. Pode discordar-se da filosofia mas não se pode deixar de admirar o espírito. E por ali ficámos a falar sobre o que já tinhamos visto. E senti-me tão pequenino... Eles já tinham andado por todo o lado. O Miguel em particular já tinha andado pela Ásia e estava agora na América do Sul, num total (penso) de nove meses. E eu a achar que estava a fazer uma grande coisa...

A trupe portuguesa de S. Pedro de Atacama.

Depois de almoço foi hora de marcar as excursões. Havia duas decididas. A primeira seriam os Geisers aqui perto e a outra seria a excursão de 3 dias por Uyuni de onde regressaria à Argentina.

Entro na agência de viagens recomendada pelo guia para fazer a excursão aos Geisers. Está cheio. Não há hipotese. O Miguel já tinha bilhete mas para mim não há. E como por milagre, naquele momento decide-se aumentar para dois autocarros. Melhor para mim. Está tudo acertado. Vou no dia seguinte com o Miguel (e o casal de portugueses) aos Geisers e a saída está marcada para as 4 da manhã. Depois há que dar o segundo passo. Vou então à outra agência recomendada pelo guia para o tour a Uyuni e reservo a excursão para daí a dois dias. Não regressava a S. Pedro porque optei por seguir de Uyuni para Salta, de volta à Argentina.

Excursões reservadas (e negociações e esclarecimentos e tudo e mais alguma coisa), era tempo para ir levantar dinheiro para as pagar. Só havia um Multibanco com Visa na cidade. E... pois. Já adivinharam. Estava avariado. Parece que iam lá às 16h da tarde. Às 16h talvez fossem às 17h. Às 17h se calhar vinham às 18h mas o mais provável era não virem hoje já. Às 18h30 finalmente é tempo de conseguir levantar dinheiro e pagar as excursões que tinha de pagar. Pelo meio ia passando o tempo na internet. É no momento que estou a pagar a excursão aos Geisers que a aventura começa. O Miguel estava lá fora à minha espera e noto uma estranha agitação. Estão três miúdas dos seus 16 anos a falar com ele de forma estranhamente animada. O meu amigo alentejano entra e diz-me: "Elas querem tirar uma foto contigo. Por causa da camisola.". E eu... pronto tudo bem. Que esperem um bocadinho que eu já saio. Mas não. Uma foto tirada da porta basta para elas. Não é preciso mais nada. Então força, disse eu.

Restaurantes com muito boa onda.

De volta ao Hostel, reencontro-me mais tarde com o Miguel para jantar. Cedo porque já não vamos dormir muito. Aqui não é difícil encontrar um restaurante com pinta. São quase todos ao ar livre com fogueiras (porque à noite faz frio e não é pouco). Uma bela pizza depois estou de volta ao hostel. Pelo caminho ouço um "Hey Ronaldo!!!" atrás de mim. São as jovens de hoje à tarde que aproveitam para me tirar mais umas fotos. Ai vida a minha... Felizmente cheguei rapidamente ao hostel e fui directo ao quarto onde, após curta conversa com os companheiros de noite, caio num sono profundo.



No mp3: Hotel California - The Eagles ("on a dark desert highway" parece-me apropriado à viagem).

Dia 19 ::: 26-03-2007 ::: Santiago de Chile e viagem para S Pedro Atacama

Curto. Vai ser assim este post. Afinal, de um dia cuja maioria foi preenchida com mais uma viagem de autocarro acho que não há muito para dizer.

Com poucas horas antes do autocarro, aproveitei o pouco tempo que tinha para explorar melhor o centro de Santiago, coisa que ainda não tinha feito. Andei pelas ruas, senti-lhe ao de leve o pulso. Caminhei sem grande lógica pelas ruas. Não ia ter tempo para passar em todos os pontos obrigatórios (para recuperar algumas das fotos perdidas na máquina roubada) por isso decidi caminhar ao acaso e ver o que encontrava.







Obrigado pela foto senhor polícia chileno muito simpático.


A partida para S. Pedro de Atacama fez-se ao meio dia. Até às 10h da manha do dia seguinte aquela seria a minha casa. Entre dormitar ia acordando e recordo perfeitamente o aparecer do Oceano Pacífico (não o da RFM. O outro, mesmo) e os primeiros cactos do deserto de Atacama (o mais alto deserto do mundo). Lembro-me também de uma estação de serviço ali largada ao acaso na berma da estrada e pouco mais.


Não o da RFM. O outro.

Um estranho fenómeno de sol e chuva no mar. Será Deus? Parece...

O resto foi dormir e ver alguns filmes. Entre eles, pela segunda e terceira vez, sim deu duas vezes o filme na viagem, o Fast and Furious - Tokyo Drift. Lembro-me que numa das paragens fiquei a olhar para um rapaz que também olhava para mim. Fiquei ali no vai não vai para ir falar com ele e acho que ele também mas acabei por decidir ficar sossegado e dormir e acho que ele fez o mesmo. E assim foi... horas e horas a dormir que olhar lá para fora e só ver tudo escuro também não tem grande piada. Acho que começo a ficar perfeitamente acostumado a estas viagens no espaço e no tempo.



No mp3: Grey Street - Dave Matthews Band (porque estamos numa cidade a sério)

Dia 18 ::: 25-03-2007 ::: Santiago de Chile

Chegada a Santiago: 06:50. Num termina que já me era familiar, tento equacionar as hipóteses que tenho para chegar a casa do Jorge. Taxi ou metro? Acabo por me decidir pelo primeiro. A palavra certa para definir a intensidade da minha vontade de chegar a casa do Jorge era "Desespero". Ao meu lado e atrás de mim, como companhia na viagem, tive nada mais nada menos do que os dois membros fundadores do clube mundiar de ressonadores pofissionais. Resultado... não dormir e nem com o mp3 no máximo a ouvir as músicas mais pesadas conseguia abafar totalmente o ruído.

Um taxista oferece-se para me levar por um preço especial. Como da outra vez que cá estive não me lembro de ter pago um preço tão elevado que justificasse desconto desconfio. Acabo por despachar o homem até porque ainda tinha de me despedir das australianas. Depois dos bye bye's lá me meti na fila de taxis oficiais. E, como dizer, não sei se o outro tipo me ia roubar ou não. Este roubou de certeza. Deve ter dado 3 voltas a Santiago do Chile. E foi de tal maneira descarado que quando chegámos me recusei a pagar o que o taxímetro marcava e então estivemos em negociações. Ainda assim ficou a ganhar... E nem podia dizer "sacana do chileno" porque o tipo era um argentino que tinha ido para ali tentar a sua sorte.

Chegado a casa do Jorge, tempo de dormir. Dormir a sério. Acordei às 14h. Mas não fiquei nem um pouco chateado. Já conhecia Santiago do Chile por isso não tinha nada específico para fazer. Passada a tarde a pôr a conversa com o Jorge em dia e a mostrar-lhe as fotos, foi por volta das 17h30 que segui em direcção ao centro para comprar o meu bilhete para S. Pedro de Atacama.

Voltar a Santiago foi como voltar à vida real ainda que só por um par de dias. De volta à confusão, às vidas normais de trabalho-casa, sem turistas, ruas cheias de gente de gestos automatizados. Foi também estranho porque já não era aquela cidade extremamente calma que de um segundo para o outro explode em confrontos na rua como a conheci (lembrem-se que a outra vez que cá vim foi o fim-de-semana que o Pinochet escolheu para passar a barreira). Tinha saído de um completo convívio com a natureza para mergulhar no betão do homem, de uma cidade comum, movimentada, de gentes ocupadas e pouco atentas ao mundo que têm à sua volta. A zona junto ao terminal é um amontoado de tendas e bancas que vendem de tudo sem ordem aparente. Ao lado das toalhas de praia está a carne, depois as pipocas e logo a seguir peças de automóvel. Por uns momentos fui transportado para Argel.


Ants Marching

Comprado o bilhete, recebo a fantástica notícia de que a viagem demora cerca de... 20 horas. É verdade. Tá bem que não eram 32 mas era praticamente um dia. A partida estava marcada para o dia seguinte ao final da manhã.

Jantar, Irish e muita conversa agora já na companhia do Fernando, outro português contacto que chegou recentemente.

Antes ainda de ir dormir, vai de gravar uns dvd's com as fotos. Quando as mostrei ao Jorge tomei contacto com a dura realidade: algumas das fotos estavam danificadas porque os cd's já não estavam no melhor estado. Vai daí, toca a prevenir. É que, a esta altura do campeonato, ficar sem fotos não era coisa simpática...

Três pessoas, três países. E só uma nacionalidade nos Bilhetes de Identidade.

Não foi um dia particularmente interessante para postar, eu sei. Mas quem me pediu para fazer um diário? Agora que sentido fazia estar a excluir um dia no meio de todo o relato? Paciências. Pelo menos livram-se dos textos bíblicos. E aviso que amanhã não vai ser muito diferente.

Plano para amanhã, acordar cedo, sair com tudo, passear no centro e... pronto... ir sentado horas a fio.

Fica aqui também um agradecimento à simpatia e hospitalidade com que Jorge e Fernando me receberam. Jorge foi bom rever-te e saber que estás para (pelo menos tentar) ficar. Espero que tenhas toda a sorte do mundo nisso.

No mp3: Ants Marching - Dave Matthews Band ("And all the little ants are marching, red and black antennas waving. They all do it the same, they all do it the same way").

Thursday, July 19, 2007

Dia 17 ::: 24-03-2007 ::: Pucón

O acordar teria de ser cedo. A excursão de Hidrospeed começava às 10h00 e eu não tinha lugar marcado. Por isso queria chegar cedo para não correr riscos. Às 8h acordo. Com o primeiro tocar do despertador. Coisa nunca antes vista nesta viagem (e poucas vezes vista no resto da minha existência). Mas as horas que dormi permitem perceber porque acordei tão bem.O hostel estava calmo. Fui tomar banho. O hostel continuava calmo. Arrumei as coisas. O hostel continuava calmo. Fui comer. O hostel continuava calmo. Fui à internet. Eram 8h00. Como? 8 horas???? Olhei para o telemóvel. 9h00 dizia ele. Olha... mudei a hora do telemóvel sem querer... Ou então não. A hora tinha mudado e eu não sabia.Conseguido o lugar na excursão, juntei-me às australianas e pelo caminho até ao rio recolhemos 3 israelitas. Postos os fatos, sem direito a fotos porque convenhamos que andar num rio de máquina não dá jeito, lá nos atirámos para a água.



O funcionamento do Hidrospeed é este que viram em cima em fotos cedidas com enorme gentileza e total desconhecimento por alguém que as colocou na internet. Uma prancha tipo bodyboard com uma zona para encaixar os braços e um sítio para agarrar. Um capacete, umas barbatanas e um fato térmico (felizmente porque o rio andava pouco longe de gelado). De resto... nada de barco. So aquela prancha, nós, a água e os milhares de calhaus que se cruzariam no nosso caminho.Começam as explicações. Um dos israelitas com pouco jeito para a coisa mostra alguma dificuldade. Outro está meio distraído. O guia é brusco com eles. Diria... mal educado. Mais tarde revelar-nos-ia (a mim e às australianas) que não gosta de israelitas. O mau ambiente começou a instalar-se na comitiva. E devo dizer que por causa do guia. Eu não tive razões de queixa. Era um porreiro comigo. Mas com eles foi mal educado. E tudo bem que os israelitas possam ter má fama nestas andanças. Mas ainda são o cliente e de qualquer forma não me parece uma maneira correcta de se tratar as pessoas.
As regras eram básicas. Seguiriamos todos em fila indiana, com atenção ao guia que seguia na frente. Era só seguir o caminho dele, virar onde ele virava e evitariamos as pedras. À primeira vista nada de difícil.

Começa a descida. Calma no início. Seria por pouco tempo. Chega a primeira fase de rápidos. Ainda não muito fortes mas suficientes para lançar o caos. Naquele momento, era cada um para seu lado, a chocar uns contra os outros. Enfim... levámos sermão. Óbvio. Particularmente um dos israelitas que, coitado, bem tentava perceber para que serviam aquelas coisas que lhe apertavam os pés chamadas barbatanas e que só lhe dificultavam a vida. Mas por mais que tentasse explicar-lhe, o tipo não percebia que o objectivo das barbatanas é serem batidas dentro de água e não acima. Isso só serve para atirar água ao tipo de quem atrás e não ter a mínima interferência na descida.Antes do início da segunda fase de rápidos, novas instrucções. No final dos rápidos teriamos de ser rápidos (viram o trocadinho genial?) e encostar à margem direita do rio. Nada de perder tempo. Foi o que mais ou menos fizemos todos. Menos... claro. O israelita. Passa por nós disparado. Com ar de quem não sabe muito bem o que aí vem segue que nem uma bala rio abaixo. Guia a gritar, nós a olhar e o tipo a descer. Nem por nada conseguia virar para a margem. E logo sai o guia disparado atrás dele. Desaparecem na corrente e voltam 10 minutos depois. A passo. Pela margem. Desgraçado do rapaz vinha com cara de infeliz. Sentado na margem comenta comigo: "As raparigas fazem isto parece tão fácil...". Coitado... além de incapaz está envergonhado.Envergonhado e afastado. Ficou definido que ele e a namorada, antes dos rápidos maiores ficariam na margem à espera da carrinha que os iria buscar.

Nós percebemos então porque é que tinhamos de parar ali. Voltámos um pouco atrás junto a uma pedra enorme. Aquilo provocava um efeito esquisito na corrente, uma espécie de onda fixa onde conseguimos fazer uma espécie de bodyboard. Aquilo era giro. O problema era aguentar a corrente enquanto esperavamos vez. Mas o Gonçalo nunca dorme. Mesmo ali a jeito, preso num calhau estava um tipo de kayake que nos ia acompanhando e sacando fotos (para depois vender a um preço exorbitante que, naturalmente, recusámos). Não é tarde nem é cedo. Braço grande e manápula gigante haviam de servir para alguma coisa. Estico o braço e agarro-me ao barquito. O tipo bem gritava: "Larga! Larga! Olha que me atiras ao chão!". Tá bem tá. Fingi que não compreendia. Pelo menos não me cansava.Passada a diversão na surf area, seguimos rio abaixo de forma calma até que, como combinado, dois dos três israelitas ficaram na margem. Isto tinha dois significados. Por um lado, significava que o caldo estava definitivamente entornado entre eles e o guia e por outro (para mim mais preocupante) que vinham aí os rápidos fortes.E foi o ver se te avias. O guia decidiu que eu ia na cauda. Era só ver o que ele fazia e ir atrás. Seguir os movimentos? Ir pelo mesmo caminho? Evitar as rochas? Oh meu amigo... tudo o que eu conseguia ver, nos intervalos em que não estava a levar com água na tromba eram as barbatanas da australiana que ia à minha frente. E quando elas saiam do campo de visão o que ali estava era um enorme calhau. Foi um sem fim de rebolões, mergulhos, caneladas em pedras, joelhadas em calhaos e "costadas" em rochas que o objectivo era mais tentar não ficar por ali. Nada de dramático. Não me magoei nenhuma vez. As rochas escorregadias e redondas e o fato acolchoado garantiam que dali não viria mal de maior. E estava a conseguir cumprir outra regra de ouro. Corpo mole. Bate na rocha e segue. E livrei-me do sermão. Podia estar em vias de me afogar, perto de estalar a espinha numa rocha qualquer que de cada vez que o guia se virava, de alguma maneira, lá estava eu na minha posição (entertanto terceira porque o israelita que sobrou também não era grande espingarda nisto).A última parte da descida foi fácil. Sem rochas, em rio fundo, era o cruzamento de dois rios que fazia a ondulação. Mais forte ali, já não deslizávamos na água. Agora era mais aos saltos. Mas foi a melhor parte.

E quando pensava que a aventura tinha acabado, continua. Agora em terra. Enquanto arrumava o material, assisto à seguinte conversa entre o guia e o resistente:

Guia - "Porque é que vocês são sempre assim?"

Resistente - "Como?"

G - "As pessoas quando vêm cá querem divertir-se. Vocês entram na minha agência e nem querem saber o que é que há para fazer. Dizem "Somos 10 e queremos desconto!". Eu para vender excursões a Israelitas tenho de começar por cobrar 3 vezes mais para ao fim de negociação chegar a um acordo ao preço normal. Isso cria mau ambiente..."

R - "Isso são os indianos nos estados unidos."

G - "Não me lixes!"

E eu tudo bem... O tipo tem razão no que disse, há que dizer. Não é o primeiro que ouço queixar-se. Mas eles também têm razões de queixa. Enfim... ninguém sai bem disto.
Regressados a Pucón, volto a experimentar a simpatia da gente do Backpacker's Hostel. Deixam-me guardar a minha tralha ali até apanhar o autocarro e deixam-me tomar banho e usar as instalações como se lá estivesse alojado.

Havia pouco tempo para fazer algo que ainda não tinha feito: conhecer Pucón. Por isso, depois de um almoço com as australianas era tempo de passear pela cidade enquanto esperava a hora do autocarro para Santiago. Mas antes disso, tempo para outra coisa: saber como correu o primeiro seminário da minha senhora doutora. Está do outro lado da banheira atlântica mas está comigo na mesma! (ena pá que belo momento de graxa!!).Pucón é a típica cidade parva dos filmes sobre vulcões. Sabem aquela cidade que no fim de um filme acaba totalmente destruida e nos dizemos "Também quem é o otário que se lembra de fundar uma cidade ali ao lado daquilo? Era de prever não?".

Mas a explicação é simples. É uma cidade que vive para o turismo. Cobram preços que até dói. É tudo casas de madeira... digamos que o investimento fica compensado ao fim de pouco tempo. E tendo em conta que a última erupção foi em 1984, já compensou e bem.

Pucón. A cidade imbecil. Ou não...

Ali trilhada entre um enorme cone de pedra fumegante e um lago enorme, Pucón é uma cidade para o turista. Bem arranjada, limpa, bonitinha, com as suas casinhas de madeira e os seus canteiros perfeitamente arranjados. Acho que é mais cutxi cutxi que Ushuaia até. Acabo a tarde com um pôr-do-sol fantástico sobre o lago, despedindo-me assim da cidade relâmpago. Foi chegar, ver e fazer. Não parei, fiz o mais que pude e vou-me embora com pena de não ter tempo nem dinheiro para ficar cá mais uns dias e explorar melhor o que por aqui se pode fazer.

O Quartel dos Bombeiros. Cutxi Cutxi q.b.

Ufa...

Recordar as aulas de ciências...

A montagem não está grande coisa. Mas que era giro, era!

A avenida principal. O'Higgins como mandam as regras das avenidas principais no Chile.

Chaminés de Pucón.


Tal como em Ushuaia, transformadores em cima de estruturas de madeira. A razão é lógica. Com gelo, lava, tremores de terra e afins, é conveniente as coisas estarem o mais acessíveis possível...



"...um pôr-do-sol fantástico sobre o lago."


Comprada a comida, feitas as despedidas no hostel e quase cego por um pau de incenso que alguém teve a infeliz ideia de espetar numa parede do hostel bem à altura da minha cara, foi altura de virar costas a Pucón. O destino de passagem era Santiago do Chile. É para lá que me dirijo com S. Pedro de Atacama no horizonte.


No mp3: Go - Pearl Jam (bom ritmo para ouvir a fazer Hidrospeed)

Wednesday, July 18, 2007

Dia 16 ::: 23-03-2007 ::: Pucón

4:10. Batem-me à porta do quarto. Tinha adormecido nervoso com medo de não acordar de maneira que saltei da cama. Olhei para as horas e percebi que estava atrasado. Era o empregado do hotel. Parece que a carrinha estava há cinco minutos lá fora a buzinar e ele acordou. Aliás... ele e, suponho, o resto do hostel também. Só eu é que não. Enfim... nada de novo. Mas desta vez para previnir este tipo de situação já tinha tudo pronto de maneiras que foi só o tempo para uma lavagem à gato e sair porta fora.

Pela frente tinha meia hora de viagem numa carripana durante a qual tentei o impossível: dormir. O caminho foi feito aos saltos de maneira bastante violenta pelo que entre tentar dormir e não escutar o barulho tinha de me preocupar também em não cair do banco e em não bater com a cabeça em lado nenhum.

A carrinha deixou-nos a meio caminho entre a base e a cratera do vulcão. Era o Villarica, um dos vários vulcões da região, mas o único em actividade. Saído da carrinha, o frio que se fazia sentir acordava-me imediatamente. No escuro com uma ou outra lanterna tornava-se difícil conhecer as caras dos meus companheiros de subida. Ficaria para mais tarde portanto. No escuro, podiamos ver lá no alto, naquilo que devia ser o topo que não viamos, uma mancha vermelha. Era a luz da lava reflectida no fumo dizia um dos guias. É um bocado arrepiante a ideia de que debaixo dos nossos pés está aquela coisa vermelha e escaldante (para usar um eufemismo) que só estamos habituados a ver na televisão e relacionado com coisas não muito boas. A ideia de que aquilo podia rebentar a qualquer momento cruza-nos imediatamente o pensamento ainda que saibamos que não é verdade. Hoje já existem mecanismos que permitem prever com alguma antecedência uma erupção.

Começamos então a subida. Começando aos 1400 metros sabemos que o destino está praticamente nos 3000. São por isso 1600 metros a subir, como é óbvio muito pouco em linha recta. Por alguma razão demoramos 6 horas (tempo previsto) a subir. A primeira parte foi feita um bocado em piloto automático. Bem perto de um dos caminhantes que teve direito a lanterna para ver o caminho, ia subindo sem olhar para lado nenhum sem ser o chão. Nesta fase limitavamo-nos a seguir as cadeirirnhas da estância de sky, ridículas, enterradas naquela areia preta, sem finalidade aparente. Vivem para o inverno. É como os Ursos mas ao contrário.

Ao fim uma hora de caminhada, chegamos ao fim das cadeiras. É tempo para a primeira paragem. A claridade já permitia ver lá em baixo Pucón, trilhado entre o vulcão e o lago. O cone do vulcão também já se mostrava, envolto no seu enxofre que não tardariamos a sentir. Pequeno almoço em punho, ali ficámos meia hora a apreciar o nascer do sol e a dar descanso ao corpo porque a primeira parte foi puxadam, entre terra solta e areia. Aproveito também a luz para conhecer as caras dos meus novos companheiros. Além dos dois guias, mais seis turistas. Na memória ficaram duas australianas, dois holandeses e uma rapariga que penso ser dinamarquesa ou algo do género. O sexto elemento era um homem, meio palerma e não me lembro da nacionalidade.


Sunrise in Pucón.

Pucón lá em baixo. Pequenina e brilhante.

Descansadas as pernas, confortado o estômago, recuperado o fôlego e satisfeita a necessidade fotográfica seguimos caminho. O terreno muda completamente. A terra e areia preta dão agora lugar a enormes pedregulhos de lava, rugosos e ásperos. Pelo meio, os restos de uma antiga estutura de cadeiras da estância de sky que aqui havia na década de 80 e que foi destruída na última grande erupção.

O primeiro lençol de gelo. Este passou ao lado do trajecto. Mais à frente havia de ser diferente.

É uma daquelas coisas que inspira logo confiança. As ruínas das antiga estância de Sky destuídas pela erupção de 1984.


E eis que surge o primeiro lençol de gelo. E por alguma razão o guia achou que ainda não havia necessidade de usar os espigões pelo que seguimos com as nossas botitas sobre gelo. Sentia-me tão seguro como aquele carro que ficou a balançar no cabo Espichel e... caiu. A verdade é que nunca estive perto de cair mas andar sobre gelo de forma lateral relativamente à descida cujo fim não via tornaram aquela meia hora de caminhada uma das maiores de toda a viagem. Não acabava nunca. Dei a entender ao guia que não me sentia muito seguro. Vai daí o tipo saca-me da picareta que fazia parte do meu equipamento e dá-ma prá mão para usar como bengala. Grande solução. Agora tinha duas preocupações:


1- Onde punha os pés.
2- Não espetar a picareta numa perna.

Acrescia a isso o problema de se aquela picareta ser suposto ser bengala ter sido feita à medida de um anão. Daí que ou eu me curvava muito ou aquilo não fazia grande efeito. Acho que foi mais para me calar. Acho mas não tenho a certeza. Ou então tenho...
Terminado o primeiro lençol de gelo (graças a Deus), tempo para mais uma caminhada sobre rochas. Estavamos agora bem mais alto do que na primeira paragem e a vista que tinha só me fazia ansiar por chegar ao topo. A cratera estava bem mais próxima e tinha também um ar bem mais ameaçador.


O fim do primeiro lençol de gelo. Graças a Deus!!

Esta foto lembra-me sempre da Irmandade do Anel a caminhar em direcção às fornalhas de Mordor.


A dada altura parámos. Tinha chegado a hora do gelo a sério. Espigões nos pés, picareta em punho, gorro na cabeça e creme no nariz aí estou eu pronto para a subida (ou nem tanto mas não podia mostrar. Havia raparigas no grupo caraças!!).


All set!! (pelo menos por fora!)


Olha o espigão bonito. Amigo e ajudante!

Enquanto para fora mostrava um sorriso parvo, por dentro encorajava-me com frases como:

"Vá! Se fosse realmente perigoso isto não era permitido a amadores como eu!"
"Não sejas parvo! Tanta gente faz isto... não pode ser tão difícil!"

Enquanto repetia estas frases para mim o guia ia dizendo:

"Jamais larguem a picareta! Se cairem e a largarem o mais provável é morrerem! Porque a picareta serve para espetar no chão para travar. Se não a tiverem só param lá em baixo ou espalmados numa pedra!""Ainda aqui há umas semanas morreu aqui um tipo por causa disso!"

e vira-se para o guia: "Lembras-te daquela senhora que caiu aqui a semana passada e partiu as duas pernas?"

EU PERCEBO ESPANHOL PÁ! ELES NÃO MAS EU PERCEBO!!!

Mas a melhor recomendação de todas foi sem dúvida:

"Cuidado ao andar com os espigões. Não colem as pernas. Não estando habituados se não tiverem cuidado acabam por prender os espigões de uma bota na outra e caem. É o acidente mais comum por cá!"

Ora sabendo eu do meu extenso historial de tropeções e trapalhices (que tanto faziam rir o André) era evidente para mim que a partir daquele momento estava feito. Chegar ao topo deixava de ser o objectivo. Chegar ao fim vivo parecia-me agora muito mais importante.

Nesta insegurança toda, a primeira parte da viagem sobre o gelo foi pouco menos que ridícula. Andando muito de vagarinho em trilhas já desenhadas pelas excursões dos últimos dias, faziamos zigue-zagues muito fechados de maneira a subir sem grande inclinação. Cada curva era uma aventura. Trocar a picareta de mão, rodar o corpo sem me desiquilibrar. Olhar para baixo estava fora de questão porque com as minhas vertigens perdia por completo o equilíbrio. A caminhar, um pé seguia muito vagarosamente o outro. A cada passo pisava muito bem o chão onde me ia apoiar para ter a certeza que o gelo não cedia. Isto mesmo depois de já ali terem passado 4 pessoas. Ainda por cima, o caminho tinha a largura para pés normais. Não para as minhas barbatanas pelo que aquilo para mim aumentava muito mais a probabilidade de tropeçar.

Uma das poucas fotos que tive coragem de tirar nesta fase da subida.


A adrenalina estava nos píncaros meus amigos. E o arrependimento também. O caminho ia sendo feito sempre junto a ribanceiras cujo fim não estava à vista. Com medo do que via, tendia a inclinar-me para a subida, apoiando todo o meu peso na picareta. Várias vezes o guia tentou obrigar-me a andar direito. Dizia "Caminha direito! É mais seguro." Eu olhava para a descida que estava do outro lado e dizia "Ta parvo o gajo!". Andámos nisto um bom bocado até eu me habituar a andar assim.

Pelo caminho iamos parando algumas vezes para descansar, beber, comer e fotografar. E havia uns sacanas que tiravam a máquina da mochila e caminhavam com enorme à-vontade pelo gelo para escolher o melhor ângulo. Eu, quando parávamos, tinha por primeiro objectivo sentar-me no gelo bem seguro. Depois tirava a máquina e sem sair do sítio fazia as fotos que podia fazer dali. Era o melhor que conseguia.
Daí que não tenha tirado muitas fotos. Estava mais preocupado em agarrar a picareta com toda a minha vida para poder tirar a máquina.

Bem sentadinho no gelo é que tu estás bem!


O que vale é que não se vêem as pernas a tremer.

Há uns mais relaxados que outros. Mas este era o guia.

Ah gelo limpinho não é? Mas na encosta de um vulcão compreende-se.


Já estava mais calmo agora. Acho que me estava a habituar a andar com aquilo e com aquela inclinação. As curvas eram feitas de forma automática e caminhava agora em passos seguros. Até que... "PAREM!!! PAREM!!!"

Perante o tom de voz achei que o melhor era mesmo parar e decidi tirar os olhos do gelo.

Patapum, Patapum, Patapum. Um calhau gigante rodava montanha abaixo mesmo ali à nossa frente. Por uns segundos tinha-nos apanhado. Se isso acontecesse era "Vemo-nos lá em baaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaixo!!". Fiquei logo muito mais seguro. A vantagem de pararmos ali foi que pudemos observar uma enorme gruta de gelo que se abria no chão mesmo ao nosso lado.

O dia estava limpo, com um céu e um sol fantásticos. Mas havia um problema: o vento. Dizia o guia que como estava não iamos conseguir subir à cratera. Ora a ideia não me agradou. Se me tinha metido naquilo era para ver a cratera. A ideia de todo aquele pânico e sacrifício para não chegar ao topo desagradava-me, vá lá, bastante.

Ao fim de uma hora chegamos ao fim do gelo. O porquê daquela ultima parte da subida não ter gelo aparece quando ponho a mão no chão. Está quente. Muito quente. Volta-me à cabeça a ideia de ali a escaços metros de profundidade estar uma piscina na qual mergulhar não seria propriamente refrescante. Tirámos os espigões que já não eram necessários e iniciamos a parte final da escalada. Os ventos tinham mudado na última hora felizmente e iamos mesmo chegar à cratera. Livre do terror de caminhar no gelo, começo a dar atenção às minhas pernas. Não respondem lá muito bem. Doem que se farta. Só agora é que me apercebi. E isso fez desta última parte a pior da subida. Ter de trepar calhaus (um bocado como em Torres del Paine) sem forças nas pernas foi tarefa árdua e demorada. E a cratera que parecia estar mesmo ali.

Até que... cheguei!!!!

Et voilà! (ena por momentos voltei a Argel. Ah francês, francês...)


O cenário era de fim do mundo! Ou de início.... À nossa frente abre-se uma enorme garganta. As suas paredes são verdes e pretas. A toda a volta, enormes pedregulhos de lava solidificada assumem diferentes cores. O preto impera, claro, logo seguido do verde. Mas o vermelho e o dourado (!) também marcam presença. O piso de pedras soltas a resvalar convidava a alguma prudência no aproximar à cratera. Com todo o cuidado chego lá. A felicidade pelo feito faz-me encher os pulmões para dizer "YAHOOOOOOOOOO!" mas so cheguei ao "Yah" que se seguiu de um violento ataque de tosse, vómitos e tonturas. No preciso momento em que insiprei fui atingido por uma núvem de enxofre que chegou a mim invisível e me inundou os pulmões daquele cheiro isuportável. Só para eu não ter a mania. Mas não era hora para lamentos! Rapidamente me refiz e continuei a apreciar a vista.

"Yah... COF COF CASP BARLG HUGH BRUUMP" - Belas onomatopeias.


Os guias cumprimentavam individualmente cada um dos turistas. Era caso para isso. O esforço tinha sido enorme e não duvido que nem toda a gente consiga chegar ao fim.

Apreciava a vista da cratera e uma paisagem de 180 graus em redor da cratera. Ao longe cones de outros vulções extintos rompem a terra em direcção aos céus. É um cenário incrível. Aqui e ali volto a sofrer ataques de nuvens de enxofre. Elas são assim. Ao longe são perfeitamente visíveis mas quando estão ali mesmo ao lado não nos apercebemos. E geralmente escolhem os momentos em que decidimos inspirar vigorosamente pelo nariz.

Foi também momento de recordar o Filipe. Esse puto do acampamento de ciganos que andava na minha turma do quinto ano na preparatória de Paranhos. Em todo o ano a ciências só acertou uma resposta em testes. À pergunta "Como se chama a formação representada na figura?" ele respondeu, e passo reproduzir a forma exacta como escreveu: "É um bulcom!" (A vingança serve-se fria. Estás a ver Lipe? Nunca me devias ter tentado gamar aquela bola de futebol! hehe).

Tanto cone! Nem tudo será vulcão mas alguns são certamente.

Olha o Bulcom!!!

Group pic.

Há que reabastecer as energias.



Não vi lava. Às vezes vê-se. Há alturas em que o vulcão está mais activo e é possível ver-se. De resto podia ter pago uma fortuna e ter sobrevoado o vulcão para a ver mas isso é para outras carteiras. Reparei depois que vendo o vulcão do Google Earth se consegue ver a mancha vermelha. Algumas excursões descem um pouco na cratera para ver a lava se não se vir do topo. Mas isso fica à responsabilidade do guia e os nossos eram muito responsáveis (nem um único acidente com eles até hoje e por isso são os únicos a ter licença para iniciar a subida de noite). Segundo eles não estavam boas condições para descer. Havia demasiado enxofre. E para mim também já tinha sido aventura suficiente. Embora se descessem eu acompanhasse! Fotografias e mais fotografias, chocolate, empanadas e água. Muita água. Quando era hora de descer podiamos ver lá em baixo do tamanho de formigas as dezenas de pessoas que estavam agora a começar a subida.

A descida foi mais fácil. De resto, a descer todos os santos ajudam, o que nestes caso pode não ser assim tão bom. Já não faziamos tantos zigue-zagues. Cortavamos a direito pelas subidas inclinando o corpo ligeiramente para trás para manter o equilíbrio e fazer mais peso sobre os espigões. No inverno, quando o cone está todo coberto de neve, a descida é feita a deslizar com a ajuda da picareta para travar. É mais fácil, mais divertida e menos cansativa. Mas nesta altura com pouco gelo é irresponsabilidade fazer isso. Aqui e ali as pedras rompem o gelo e tornam-se muito perigosas para quem desliza. Que o diga o israelita que resolveu deslizar há dois dias, com outros guias e que acabou com a cara toda aberta numa pedra.

Os gigantes (leia-se nós) a descer e as formigas a subir.

Um pedaço de algodão veio cumprimentar-nos. E reduzir significativamente a visibilidade também...

Chegados ao fim e depois de recebermos um reforço de parabéns dos guias, ponho-me a fazer contas. 1600 metros de subida e descida, transformados em muito mais kilometros pela enorme quantidade de zigue-zagues. 6 horas a subir, 2 e meia a descer. Mais uma conquista. E o nosso Ego volta a estar inchado. Saimos dali orgulhosos de nós mesmos.

De regresso, paragem no Backpackers Hostel onde nos esperavam umas cadeiras no jardim e umas cervejas. Recuperamos forças ali mesmo à conversa num ambiente bem disposto e relaxado onde não faltaram picardias com os Holandeses à conta do Mundial. A meio da tarde volto para o Hostel para descansar um pouco. O dia ainda não tinha acabado.

Acordo às 19h30. Meia hora para tomar banho, comer e comprar vinho. O vinho era para as Termas que me esperavam, ao ar livre naquela noite limpa e fantástica. Viria a revelar-se um erro. As bebidas que se levam para as termas devem ser frescas e não alcoólicas. Mas também só soube disso depois de vir embora. Comigo vão as duas australianas do vulcão e uma americana. Após uma viagem de uns 45 minutos à conversa eis as Termas Pozones. Várias piscinas de água termal bem quente, sob um céu estrelado lindo, no meio de um bosque sem nada à volta, só nós (e a cambada de turistas que também lá estava lol) e um vento frio na cara. A piscina principal tinha uma temperatura de 40ºC. Foi o ideal para relaxar as pernas do esforço da manhã/tarde. A companhia era boa, o cenário perfeito e o vinho uma porcaria. Também era o vinho mais barato do supermercado. Ao lado dele, o vinho carrascão é casta de primeirissima qualidade multipremiado. A brincadeira de alternar entre o chuveiro de água gelada e as termas pode parecer masoquismo. Mas é na realidade fantástico. Além de relaxar os músculos, parece que nos revigora. Daí que depois de uma primeira experiência repeti o feito mais algumas vezes.

Água a 40 graus, ceu estreladissimo, vento fresquinho.... perfeito!

Ai não se pode beber álcool? Ups...

Ao final de 3 horas ali a rodar tipo frango na brasa regressámos a Pucón cada um para o seu Hostel. Para o dia seguinte tinha planeado passear apenas por Pucón. Mas a coisa mudou. Combinámos fazer juntos de manhã Hidrospeed se ainda houvesse lugar na excursão. Era uma despedida radical da cidade de desportos radicais.


No mp3 - Tales of a scorched earth - Smashing Pumpkins (confesso que a música já estava escolhida à partida pelo nome hehe)

Tuesday, July 17, 2007

Dia 15 ::: 22-03-2007 ::: A caminho de Pucón

Esta é uma das grandes vantagens (se não a maior) de se vajar sozinho. Chegado ao terminal onde deveria comprar bilhete para seguir para S Martim de los Andes, tive uma boa surpresa. Afinal havia um autocarro directo para Pucón a sair daí a minutos. Depois de uns momentos de indecisão acabo por seguir directamente para o Chile. Não ia conhecer S. Martim de los Andes o que me deixava com pena mas por outro lado poupava dinheiro e ganhava tempo.

Foi uma viagem com pouco interesse. Mais uma fronteira (a primeira onde obrigaram toda a gente a tirar as malas e passaram cães no interior do autocarro), uma ou outra paragem sem especial destaque e chegada a Pucón às 21:30. A parte final da viagem foi feita já vigiados pelos enormes cones de vulcões que naquela zona crescem como árvores. À saída do terminal tenho um encontro imediato com a sorte grande. Abordo um homem para saber onde ficava o hostel onde tinha reserva e fico a saber que a morada está desactualizada. Nessa morada ficava agora um outro hostel. O dele. O Hostel Backpackers da região. Mantive a intenção de ficar no outro hostel (e ainda bem porque tive um quarto individual por 3 vezes menos que um quarto partilhado naquele) mas ficou-me na cabeça uma excursão organizada pelo Backpacker's Hostel. A subida ao Vulcão durante a noite, com direito a amanhecer a meio e chegada ao topo de manhã. Segundo percebi, são os únicos com permissão para o fazer o que garante também mais sossego na zona. E isto pelo mesmo preço das excursões normais.

Quando cheguei ao Hostel já tinha decidido. O facto de ter pouco tempo pesou na escolha. Este horário permitia-me aproveitar ainda parte do dia e assim ganhar tempo para fazer o máximo no menos tempo possível em Pucón. Marcado o lugar na excursão, fui dormir porque o despertar seria às 4 da manhã e sabia que bem ia precisar de energia para o que aí vinha. Já abastecido de uma boa quantidade do meu melhor companheiro para estas caminhadas (chocolate) fui dormir. Esperando acordar...

Neste post não há fotos. Mas o próximo compensa.

No mp3: Pyramid Song - Radiohead

Dia 14 ::: 21-03-2007 ::: Bariloche e arredores

O dia começa bem. O telemóvel já devia estar a despertar há uns tempos porque quando acordei estava diante de mim com o telemóvel nas mãos um dos ingleses que ontem acabou a noite podre de bêbado. Era daqueles ingleses típicos, à Rooney. Baixo, entroncado, atarracado e de cabelo rapado. Os olhos chispavam de fúria, estava vermelho (talvez com a ajuda da noite anterior) enquanto tentava calar aquele toque irritante e simultaneamente dirigia impropérios não sei se a mim ou ao telemóvel. Já na paragem de autocarro, tomo a carreira que me levaria ao porto. Uma viagem de 40 minutos, quase sempre junto ao lago, pelo meio de relvados e árvores, com as suas casinhas de madeira sempre impecáveis. Deu para conhecer a parte mais genuína de Bariloche. Bem longe do centro da cidade. Chegado ao porto e vista a companhia cheguei a temer um enorme erro. Dei comigo a pensar:

"Queres ver que foste metido numa excursão de terceira idade?"

É que posso garantir que nenhuma das pessoas que via teria menos de 70 anos... Afinal não. Havia um casal de namorados se bem que pelo índice de bimbice (esta palavra existe?) não seria também uma companhia propriamente agradável. Ia mesmo ser uma jornada individual. E eu não estava minimamente importado com isso. Já me começava a habituar...

Hotel Llao Llao, junto ao porto.


O porto já visto do lago.

Entro então no barco rumo à primeira paragem. Bosque dos Arrayanes. A paisagem da viagem é de facto encantadora. Um lago calmissimo de água transparente, montanhas a toda a volta, árvores na margem e uma paz enorme. Aqui e ali uma ilha no lago marca presença. Se as vistas são lindas nesta altura, no inverno, cobertas do branco da neve devem ser incríveis. A chegada ao Bosque dá-se neste clima de paz de espírito.

O tempo de paragem é curto, sendo suficiente apenas para uma volta pelo bosque seguindo os passadiços. É o que faço mas no início preocupo-me em acelerar um pouco para ganhar distância do grupo e apreciar a tranquilidade que ali se sente sozinho com a minha música. Os Arrayanes são um case study aqui. Arbustos em todo o mundo, só nesta pequenissima área ganham o estatuto de árvore.os seus troncos apresentam uma cor entre o castanho claro e o amarelo. Diz-se que foi aqui que Walt Disney foi buscar a inspiração para criar o Bambi. E é fácil de perceber porquê. O bosque cerrado, a vegetação rasteira, o lago transparente e o ambiente totalmente desligado do mundo dão a este espaço um certo ambiente de magia. Pelo meio, duas ou três cabanas de madeira perfeitinhas dão o toque final ao ambiente Disney. Mas o tempo é curto e a buzina grossa do barco arranca-nos da fantasia. Há que partir para a Isla Victoria.


Uma maneira diferente de fazer escadas.

Os Arrayanes, propriamente ditos.



Rei morto, rei posto. Já estou de novo em alta no visual com este fantástico par de óculos comprado numa qualquer loja de Bariloche a um preço ridículo.


Bem no meio do lago, a Isla Victoria aparece com as suas enormes árvores. É uma espécie de estufa mundial. Aqui, podemos encontrar espécies de todos os continentes, como os nossos conhecidos eucaliptos australianos rodeados de vulgares silvas e no minuto seguinte estamos a olhar para Sequoias americanas, enormes e imponentes. Por razões óbvias, o continente menos representado aqui é o africano mas mesmo esse tem aqui alguns representantes. A floresta, as casas, os relvados verdes e o lago continuam a empurrar-me para a paisagem tirolesa. Meus amigos... estou nos Alpes. E espero ver a qualquer momento a famosa vaca roxa da televisão. Aqui passámos o resto do dia. A passear pela ilha. Infelizmente, a melhor trilha está fechada para reparação porque o mau tempo que se fez sentir nos dias antes de eu chegar estragou os caminhos que estão agora em risco de derrocada. Paciência.

O barco. Parece que é famoso. Já transportou famílias reais e tal...

Recantos...

Nunca falha.

Mais recantos...

Ora isto é uma pinha de Sequóia. Sim. Aquela árvore gigante produz esta pinha ridícula. E haviam de ver a semente. É um pontinho que quase não se vê.


O regresso faz-se pelo fim da tarde cruzando as calmas e transparentes águas do Lago Nahuel Huapi. O ambiente tranquilo convidava a uma reflexão e a decisões importantes para a viagem. Gostei do que vi. Mas foi um dia calmo. Muito calmo. E já era o terceiro que tinha assim contando com a viagem. Estava a precisar de alguma coisa mais activa. Daí que decidi seguir no dia seguinte para Bariloche. A ideia era seguir para San Martim de Los Andes. De lá seguiria para Pucón, de volta ao Chile. Isto porque segundo me disseram, amanhã não havia autocarros para Pucón. Pelo que se era para esperar mais um dia sempre aproveitava para conhecer outra cidade de referência desta zona.




À noite durante o jantar uma rapariga chocada porque eu estava a comer batatas fritas com o hamburguer e um rapaz que insistia que o Hitler simulou o suicídio e veio viver para Bariloche e que isso está provado preencheram-me a noite. Isso e os ingleses cuja anatomia começo a questionar. À quantidade de álcool que bebem não podem ter fígado.

No mp3: Cupid de Locke - Smashing Pumpkins (é parece que está de volta ao mesmo)